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segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Sete notas sobre quadrilhas juninas em Aracaju (6) - Os marcadores

Marcadores é como são denominado os líderes das quadrilhas. Líderes em vários sentidos: na escolha das coreografias, do roteiro de apresentação, na colocação dos pares – à frente ou ao fundo -, na escalação de quem dança e de quem sobra, na palavra final sobre o traje, etc. O marcador é efetivamente o líder do grupo. Contudo, já houve tentativas de compartilhamento de poder. Vários foram, também, os fracassos. A “democracia” na Quadrilha começou a ser experimentada com a formação de diretorias para desempenhar tarefas de gerenciamento dos grupos, solucionando problemas como a captação de dinheiro, falta de local para o ensaio, necessidade de transporte e até o trabalho de cooptação de bons dançarinos.
O resultado dessa tentativa de organização do grupo em entidade de direito privado, com uma gestão democrática foi quase sempre o confronto entre o marcador – que teria tarefas ligadas ao ensaio, à parte artística – e o restante da diretoria. No conflito, a diretoria era dissolvida e o marcador reassumia o poder total perante o grupo.
Hoje, as quadrilhas são lideradas administrativa e artisticamente pelos marcadores, auxiliados por um ou outro abnegado, disposto a agüentar as suas idiossincrasias e o estresse provocado pela condução dos trabalhos. Quando há diretoria na Quadrilha, ela é quase sempre presidida pelo próprio marcador.
O fato de várias diretorias terem fracassado, pode ser explicado pela própria origem dos grupos. Em geral, uma Quadrilha nasce em torno de uma pessoa e essa pessoa, dedicada, talentosa, carismática, é o marcador. Até oito anos atrás, aproximadamente, esses indivíduos apresentavam-se e atraiam outros dançarinos dando provas do seu talento na criação de partes e na execução dos passos com perfeição.
Hoje, outros requisitos foram incorporados, como: o poder sobre políticos, sobre a comunidade, dentro do movimento dos marcadores e, até mesmo, a sua capacidade de levantar fundos. Ser um bom dançarino já não é fundamental para tornar-se o centro das atenções. Esse marcador, que se empenha na formação da Quadrilha, fornecendo o estilo e, por muito tempo, sustentando-a financeiramente, vai tecendo suas relações com os membros do grupo e estabelecendo-se como líder inquestionável.
Uma Quadrilha também nasce da reunião de alguns interessados que possuem as condições administrativas para sustentarem o grupo, mas carecem de experiência na dança ou de respaldo no meio dos quadrilheiros. Primeiro, solicitam o auxílio de um marcador convidado – remunerado ou não – para a concretização do projeto. Pode ser uma Quadrilha de Associação de moradores ou então de escola, de clube, de empresa, de um político, etc. Novamente, aí o marcador vai tecendo a rede de amizades e, mesmo sem ser o responsável direto pela formação do grupo, acaba por assumir poderes totais.
Se a principal intenção de quem participa das quadrilhas é a de aparecer dançando e como essa escolha está a cargo do marcador, em ambos os casos citados, não há muito como questionar as vontades do mesmo. No segundo caso, a força do marcador é dupla, pois conta com a incompetência de seus contratadores em relação à dança.
Os marcadores são sempre do sexo masculino. Dançam à frente da coluna e, via de regra, com a dama considerada “a mais bonita” do grupo. Dele não se exige “boa aparência” ou estatura mediana – com no caso dos noivos -, ou combinação da altura – entre a dama e o cavalheiro de um mesmo par. O lugar de dama do marcador é o mais cobiçado, depois, é claro, do posto de marcador. Há uma verdadeira disputa entre as mulheres do grupo. Nesse caso, ao contrário do que ocorre com o marcador, a habilidade com a dança pesa bastante.
Não são raros os relacionamentos amorosos entre o marcador e várias damas do mesmo grupo. Por ser uma peça “facilmente substituível” e vulnerável à críticas, a dama que pretende ser a escolhida não pode assegurar-se somente da simpatia do marcador. A sua competência será exigida e posta à prova durante as apresentações, corrigindo falhas e minimizando a insegurança do seu parceiro na marcação das partes.
O marcador aponta o lugar da coluna onde o quadrilheiro deve dançar e com qual dama este combina. Ele escolhe a cor do vestido de cada uma, o tipo de camisa e o modelo do chapéu. Determina a quantidade de ensaios, o ritmo das coreografias e a música que aí deve ser encaixada. Externamente, traça o roteiro das apresentações – se em concursos, atividades filantrópicas ou apresentações vendidas a empresas, etc – e escolhe as tendências políticas ou os grupos econômicos com os quais a Quadrilha se relacionará.
Depois dessas informações, vocês poderiam perguntar: e não há contestação deste poder por parte dos demais membros? Certamente que os conflitos ocorrem com um ou outro e, até, com a maioria do grupo. Entretanto, nas quadrilhas que conheço, quase sempre o marcador utiliza-se das suas reservas para contornar o problema. Ele pode retirar o apoio dos patrocinadores, pode utilizar o carisma ou optar pela simples substituição do membro. Quanto mais organizado for o seu trabalho, mais pessoas estarão esperando por uma chance para participar do grupo.
Nos últims anos, já acompanhei várias foram as ocasiões em que ao final de uma temporada os membros dispersaram-se, acusando o marcador de toda espécie de delitos, prometendo não mais voltar. Para a minha surpresa, em janeiro do ano seguinte, no calor dos movimentos para os ensaios, lá estavam estes membros descontentes às boas com o “corrupto” marcador do ano anterior.

* * *

Alguns observadores criticam os marcadores por não “comandarem” a Quadrilha através do grito. Mas, se as palavras pronunciadas em francês deturpado, os títulos das partes há muito perderam seu efeito, é também por uma questão eminentemente técnica e não por abandono deliberado do marcador. Ocorre que desde 1985 a maioria dos arraiais vem sendo equipados por sonorização de alcance médio. Isso impede a recepção da voz do marcador ditando as partes. Outro motivo advém do aumento do número de apresentações. No ritmo quase diário, a rouquidão é freqüente, após a terceira ou quarta apresentação.
A questão da surpresa também explica a omissão dos nomes das partes. Essa estratégia causa maior impacto nos jurados e obriga a atenção contínua do público que espera sempre pela próxima parte, até o final da apresentação. Com isso, novas formas de marcar foram criadas. Há os que marcam por meio de sinais com dedos, mãos e braços. Uns gritam o ritmo dominante da parte por várias vezes para indicar a mudança de passo – dentro do mesmo ritmo. Há os que promovem paradas bruscas no ritmo e solicitam música ao sanfoneiro, nomeando a parte: “sanfoneiro, olha o balancê”. Há os que gritam e são imitados por um membro localizado estrategicamente no meio da coluna. Por fim, existem aqueles que sincronizam cada parte a uma determinada música ou grupo de músicas, delegando aos tocadores a responsabilidade sobre as mudanças durante a apresentação. Esta última forma de marcar tem muita relação com a mudança de função do sanfoneiro – de solista para acompanhador – e com o aparecimento do cantor no trio. O solo vocal, por sua vez, está ligado ao fim da veiculação radiofônica, das marchinhas e quadrilhas, xotes, arrastapés, etc. de solistas famosos como Máriozan, Luiz Gonzaga, Abdias e Gerson Filho.

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. In: Sete notas sobre quadrilhas juninas. Aracaju: Nossa Gráfica, 2007. pp. 43-47.

domingo, 28 de março de 2004

O "povismo" de Clodomir Silva

Bastante acertada a decisão da Funcaju de republicar  Minha Gente: costumes de Sergipe, livro de Clodomir Silva. Não somente pela importância da obra desse intelectual da primeira República – pouco se tem a acrescentar às apresentações de Terezinha Oliva e de Luiz Antônio Barreto – mas também e, principalmente, pelo significado do livro na historiografia sobre Aracaju.  Clodomir Silva foi um dos maiores – com licença da feiúra dessa expressão – aracajuanófilos de todos os tempos, e o texto lançado no 17 de março último dá mostras dessa intimidade com a barbosópolis.
Certo que a capital onde nascera já fora por ele cantada, por exemplo, num artigo fundador – “Aracaju” (Correio de Aracaju¸ 1922) –, onde aportaram José Calazans, Fernando Porto e Sebrão Sobrinho. No Minha gente, todavia – livre para enredar – Clodomir associa cenários, costumes e pessoas. Ele dá um jeito de interromper uma narrativa biográfica para descrever, em rápidas pinceladas, a feição da rua do Arame, a movimentação na saída das fábricas, o clima festeiro do Aracajuzinho, o trabalho feminino nas salinas e a paisagem aracajuana vista da cidade de Santo Amaro.
Entretanto, não somente de Aracaju trata-se a obra. O texto de Minha gente é uma coleção de formas de pensar, agir e sentir que o autor, provavelmente, enxergaria como espontâneas e representativas de todo o Sergipe. Isso porque a capital era, para Clodomir, uma “cidade polvo” cujos tentáculos se expandiam, atraindo “tabaréus” de todas as partes do Estado. Daí a importância destes como arquivo da sergipanidade. Hoje, se vivo, Clodomir expandiria suas vistas e visitas aos bairros Santa Maria, São Carlos e Lamarão, que abrigam grande contingente de migrantes de outros Estados.
Além de síntese topográfica, o livro traz um painel da diversidade folclórica local: religiosidade, lúdica, artes e técnicas, música, folguedos, literatura e linguagem popular estão presentes na obra. É uma possibilidade de exposição, apenas. Ele “planejara um volume dedicado ao folclore de Sergipe”, livro cujos manuscritos, em 1976, estavam nas mãos do bibliófilo Antonio Simões dos Reis. (Cf. Calazans, 1992, p. 64).
Minha gente: costumes de Sergipe é simples. É uma obra de reescrita, uma coletânea. Boa leitura faz quem acompanha cada peça de forma independente (mesmo o capítulo que dá nome à obra – “Minha gente” – é, talvez, o de menor expressividade). Em alguns trechos, lembra a viagem dos românticos do século XIX à caça do povo em vias de extinção. Lembra também o Antônio Cândido cercando os modos paulistano-caipiras, forjados no tempo da colônia e embalsamados na cidade de Bofete.
Não obstante tais lembranças, não obstante a sua busca às fontes “autênticas” aos arquivos do povo, é desprovido de grandes vôos interpretativos. Clodomir Silva “era um colecionador de tradições e costumes. Um coletor de peças, voltado para as suas fontes, que deviam brotar do meio do povo, sem manifestar preocupações com o que os outros haviam colhido. Não era de seu hábito fazer citações, enunciar comparações, enumerar versos.” (Calazans, 1992, p. 62).
Essa característica chama a atenção quando olhamos ao lado, no tempo de Clodomir, os intelectuais que trabalhavam com objetivo semelhante – buscar a alma do povo sergipano. Prado Sampaio, seu contemporâneo, fez exatamente o contrário: interpretou em profusão, às vezes, bem distante da pesquisa básica. Mas, curiosa é a convergência das conclusões (do pouco que se pode extrair de Clodomir). Tanto em Prado Sampaio – com seus poetas letrados – quanto em Clodomir Silva – com seus cantores vulgares – a poesia expressa as aptidões de um povo, e o sergipano é marcadamente trabalhador, civilizador e migrante.
Mas, isso é tema para os exegetas da sergipanidade. Aqui, basta registrar que, como obra sobre folclore, Minha gente se transformou num repositório do povismo dos tempos de Clodomir. Isso também o conduz à base referencial de comparação – ele que nada comparava – de certos modos de viver de uma parcela da sociedade local. Num sobrevôo de lembranças particulares, pude notar como determinadas atividades lúdicas atravessam o tempo, conservando idênticas funções. O jogo com castanhas, o pinta-lainha, o cabra-cega, eu os alcancei na rua México, no bairro Novo Paraíso até o início dos anos 1970. Seria interessante cruzar os trabalhos do Departamento de Psicologia desenvolvidos em torno das brincadeiras de criança na periferia de Aracaju nos anos 1990.
A narrativa é um primor. Não foi pouco engenho despendido para construir o texto de forma que o provérbio, a quadrinha, a máxima fossem transmitidos em sua forma mais próxima ao evento original. Observe-se alguns títulos – “No frigi dos ovo”, “Quem non dá p’a fubá”. Não são ilustrativos. Transmitem uma riqueza de sentidos que só mesmo a cultura oral é capaz de condensar. Observam-se o vocabulário simples, mas elegante, a frase curta e o ritmo ligeiro da narrativa.
Como registro sobre as gentes de Sergipe, enfim, Minha gente já vale pelo conhecimento que sugere sobre a vida de Zé Robalo, velho pescador de Santo Amaro, nascido “no tempo da guerra do Lopes”, cheio de histórias curiosas e que nunca havia conhecido o mar; a vida de Maria de Zé Piau, fugitiva da cheia 1909 que findou seus dias como operária da Fábrica Confiança, numa tragédia semelhante à vida de Os Corumbas; as lembranças do garoto Eleotério, para quem a escola pública era “uma sala escura, [de] bancos duros, ar confinado”, a “autoridade tirânica da professora, propensa sempre a castigar.” (Cf. p. 78).

Para citar este texto
FREITAS, Itamar . O povismo de Clodomir Silva. A Semana em Foco, Aracaju, p. 6B - 6B, 28 mar. 2004.