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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Tempo presente em discussão na UFS

Olha aí pessoal!
O “Seminário Debates do Tempo Presente: ensino, tecnologias e conflitos” acontece quinta e sexta (05 e 06 de dezembro) na Universidade Federal de Sergipe.  Nove conferencistas – de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Sergipe, Pernambuco e Paraíba – e mais de 100 trabalhos inscritos em 9 simpósios temáticos vão fazer do antigo São Cristóvão o município mais “recente” do Brasil.
Confiram a programação e os temas dos simpósios.
Para maiores informações, consultem: http://debates.getempo.org,  eventos@getempo.org
(79) 2105-6387 (79) 3043-6349

PROGRAMAÇÃO

Dia 05 – Quinta-Feira
8h-9h – Credenciamento
Local: Hall da didática 06
9h – Solenidade de abertura
9h30 - Auditório da Didática 06
Conferência de abertura – “Estações das ruas: os conflitos do Tempo Presente em perspectiva comparada” 
Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ/IUPERJ) 
Coord. Dilton Maynard (UFS)

14h-18h - Simpósios Temáticos
ST 1 – Auditório de Educação
ST 2+ST 7 – Sala 105, didática V
ST 3 – Não haverá simpósio neste dia
ST 4 – Auditório do Departamento de Letras
ST 5 – Auditório do Departamento de Psicologia
ST 6 – Sala 111, didática V
ST 8-A – Auditório do Departamento de História
ST 8-B – Sala 112, didática V
ST 9 – Não haverá simpósio neste dia

19h-22h – Auditório da didática 06
Mesa Redonda 1: “Tecnologias, Mídia e Tempo Presente” 
- Márcia Ramos (UDESC) 
- Ana Ângela (UFS) 
- Janaína Mello (UFS)
Coord. Marcos Silva (UFS)

Dia 06 – Sexta-Feira
9h-10h – Auditório da didática 06
Mesa Redonda 2 – “América do Sul no Tempo Presente” 
- Rafael Araújo (UNILASSALE) 
- Karl Schurster (UPE) 
- Antonio Elíbio (UEPB) 
Coord. Corival Alves do Carmo (NURI/UFS)

14h-18h - Simpósios Temáticos
ST 1 – Auditório de Educação
ST 2+ST 7 – Sala 105, didática V
ST 3 – Sala de Reunião do Departamento de Filosofia
ST 4 – Não haverá simpósio neste dia
ST 5 – Auditório do Departamento de Psicologia
ST 6 – Sala 111, didática V
ST 8-A – Auditório do Departamento de História
ST 8-B – Sala 112, didática V
ST 9 – Auditório do Departamento de Letras

19h-22h – Auditório da didática 06
Mesa Redonda 3 – “Educação no Tempo Presente” 
- Giselda Brito (UFRPE) 
- Itamar Freitas (UFS) 
- Marizete Lucini (UFS)
Coord. Karla Karine de Jesus Silva (PROHIS/UFS)

SIMPÓSIOS TEMÁTICOS


ST 01 -  “Produção e usos escolares da história do tempo presente”

Coordenador: Prof.Dr. Itamar Freitas (NPGED/UFS)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

Este simpósio temático acolhe resultados de pesquisas que relacionem as expressões “tempo presente” e “usos da história”, sobretudo em sua dimensão escolar. Aqui, reiteramos a nossa preocupação com as diferentes noções de presente, as formas de organização desse presente nos currículos, nos livros didáticos e na historiografia de síntese voltada para o público adulto que fundamenta, em grande medida, a historiografia consumida pelos alunos da escolarização básica no Brasil e no exterior.

 

ST 02 –  História Digital: conceitos, fontes, métodos e experiências

Coordenadores: Prof.Dr. Dilton Cândido Santos Maynard (UFS/DHI)/ Profa. Anita Lucchesi (PPGHC/UFRJ)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

Este simpósio pretende congregar trabalhos que se dediquem a refletir sobre o estudo e a representação do passado a partir de novas tecnologias da comunicação, assim como a produção e a preservação de fontes digitais, considerando as potencialidades dos recursos digitais para a pesquisa e para o ensino da História. Esperamos colaborar para o debate sobre os desdobramentos da emergência dos registros digitais no ofício do historiador e sobre as transformações nas experiências de leitura, acompanhamento e argumentação em torno de questões históricas.

ST 03 – Simpósio Temático Música, Memória e Ditadura

Coordenadora: Profa.Dra. Márcia Ramos Oliveira (PPGH/UDESC)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

O Simpósio Música, memória e ditadura propõe-se a agregar investigações que abordem a música como evocação da memória e dos acontecimentos relacionados aos períodos de fechamento político, especialmente ao regime militar brasileiro (1964-1985). Interessam trabalhos que tratem a canção como referência aos eventos relacionados às ditaduras militares latino-americanas. Canção como documento e testemunho dos períodos de exceção.

ST 04 – Ditadura e Transição Política na América do Sul.

Coordenadoras: Profa. Dra. Cristina Luna (UNEB/GET-UNEB) / Profa.Dra. Priscila Gomes Correa (UNEB)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

O presente simpósio tem como objetivo incentivar a interlocução entre pesquisas que contribuem com o aprofundamento dos debates teórico, metodológico e historiográfico acerca das temáticas ligadas ao estudo das ditaduras e das transições democráticas sul-americanas, no marco geopolítico da Guerra Fria (1947-1989). Nosso intuito é não somente analisar o fenômeno na sua dimensão internacional, mas também possibilitar a compreensão de suas especificidades, através da prática de comparações entre os diferentes processos nacionais. Nesse sentido, estarão em foco questões como: a participação e o apoio da sociedade civil aos regimes autoritários, os movimentos de luta armada e oposição aos governos militares, a cultura como forma de política e protesto. Quanto ao segundo aspecto, os processos de transição democrática, serão analisados a partir de dois modelos explicativos: o da transição por colapso e o da transição pactuada, sendo que ambos guardam relação profunda com o caráter dos regimes liberal-democráticos estabelecidos em seguida nos respectivos países.

ST 05 – História e Literatura

Coordenadora: Profa. Dra Marizete Lucini (NPGED/UFS)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

O simpósio temático História e Literatura propõe-se a acolher trabalhos que discutam aspectos da narrativa histórica e da narrativa de ficção como gêneros que comunicam experiências temporais. Nesse sentido, reflexões sobre romance, cordel, poesia, biografia e contos são aqui compreendidos para além de sua característica documental. Mais que documento, a literatura possibilita ao leitor vivenciar diferentes tempos e personagens históricos em que o comunicado é a experiência humana no tempo. Experiências que podem ser reinterpretadas, permitindo aos leitores estabelecerem relações de pertencimento e de identificação com os textos acessados, bem como permitem aos sujeitos do presente, habitar o passado e transformá-lo em memória. Memória que também o constitui como sujeito histórico no presente.

ST 06 – Guerras, conflitos, revoltas e revoluções no Tempo Presente

Coordenador: Prof.Dr. Karl Schurster V. de Sousa Leão (UPE)
Local:  Auditório de Educação Horário:  14h às 18h
Baixar Programação em PDF:

Este simpósio tem como objetivo um estudo sistemático dos principais processos políticos e sociais, intitulados pela ciência política clássica como guerras, conflitos, revoltas e revolução. Nesse sentido, nosso objetivo está centrado em análises que busquem tratar estas temáticas mediante a teoria da história do tempo presente. O século XX inaugurou a prática de guerras totais, onde os esforços das sociedades se voltariam integralmente para a realização da guerra. Revoltas e revoluções praticamente se imbricaram no século XX e voltam à tona nas suas mais variadas formas no século XXI. Outro ponto de destaque são os conflitos internacionais em sua forma de guerra irregular de quarta geração, atualmente conhecida como guerra ao terror. Através destas discussões e problemáticas, esperamos pesquisas que problematizem e contextualizem tais conceitos através de suas aplicações, não em fatos, mas em processos históricos.

ST 07 –Conflitos Cibernéticos no Tempo Presente

Coordenadores: Profa.Dra.Tereza Cristina Nascimento França (NURI/UFS) /Prof. Ms. Gills Lopes Macedo de Souza (UFPE/Pró-Estratégia)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

O início do século XXI testemunha a difusão em massa da informação através do ciberespaço e, em especial, da Internet. Assim como no mundo real, o virtual também enseja os mais diversos tipos de conflitos. Os inúmeros vazamentos de informações ultrassecretas, por parte do Wikileaks, foram levados em consideração até mesmo pelos principais tomadores de decisão dos Estados Unidos da América. No âmbito das Sociedades em Redes, as infowars/netwars são travadas por integrantes da mídia, do governo e de lobbies. Em meio à crise de representação política que assola várias sociedades do mundo, hacktivistas – como o Anonymous – insistem em lembrar os “governos corruptos de todo o mundo” de que eles não são donos da Internet. Numa corrida frenética, os mais diversos Estados acirram a chamada Guerra Fria Cibernética: buscam prover suas forças armadas não apenas de armas e bombas, mas também de bits e bytes, a fim de se preparem para a guerra cibernética (cyberwar). No tabuleiro da inteligência internacional, nem mesmo o pacífico Brasil ficou de fora da espionagem. Em meio a essa efervescência cibernética, este Simpósio Temático se apresenta, com o intuito de discutir os conflitos cibernéticos (hacktivismo, guerra cibernética e infowar) que, amiúde, têm colocado a Internet no centro dos principais fóruns de debate do tempo presente.

ST 08 –  Patrimônio Cultural e redes de sociabilidades: da etnografia sociológica ao registro digital.

Coordenadores: Profa. Dra. Janaína Cardoso de Mello (NMS/UFS) e Prof. Dr. Clóvis Carvalho Britto (NMS/UFS)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

Os bens culturais assim são classificados à partir do momento em que agregam o valor de patrimônio atribuído pela sociedade (via instituições ou por meio da comunidade civil). Entre tensões e possibilidades de ensino e aprendizagem, o patrimônio cultural material e imaterial têm sido alvo de estudos etnográficos incitando o pesquisador das áreas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas à ir para o campo, imiscuindo-se entre grupos de manifestações populares, analisando estruturas arquitetônicas de igrejasm casarios ou ruínas através de medições e fotografias, entrevistando representantes de religiões afro-brasileiras, registrando festejos cristãos ou a diversidade cultural indígena. O resultado dessas pesquisas mormente resultam em publicações de livros ou artigos, todavia, no tempo presente a utilização tecnológica para elaboração de bancos de dados eletrônicos e sites interativos têm possibilitado o acondicionamento das informações e a expansão de redes de sociaibilidades para reflexão, difusão e salvaguarda do patrimônio cultural. Partindo dessas premissas, esse Simpósio Temático busca agregar trabalhos de pesquisa, docência, extensão ou tecnologia que se afinem à essa proposta para um grande debate de ideias.

ST 09 – História e Política Externa Brasileira

Coordenador: Prof.Dr. Antonio M. Elíbio Júnior. (Departamento de História-UEPB)
Local:  Auditório de Educação
Horário:  14h às 18h

No contexto contemporâneo a gestão da Política Externa Brasileira vem imprimindo novas dinâmicas às relações internacionais e mesmo redimensionando o papel do Brasil na conjuntura global. Embora o Itamaraty mantenha uma tradição diplomática baseada em princípios como o da “solução pacífica das controvérsias” e o “respeito inviolável a autodeterminação dos povos”, o Brasil tem envidado uma política externa objetivando um maior protagonismo nos foros internacionais e regionais. Os contornos do mundo “globalizado”, portanto, são definidos a partir de uma complexa rede constituída no bojo de movimentos dialéticos, de aproximação e distanciamento, de coalizões e conflitos, de interação e alinhamentos, onde novos atores e novos espaços reconfiguram as bases do poder internacional. Desde o final da Guerra Fria, o sistema internacional foi movido pela intensificação de novos conflitos que se deslocaram do eixo Leste-Oeste para novas geometrias como Norte-Sul, ricos-pobres, desenvolvidos-emergentes. Tais fenômenos lançam a relevância dos estudos acadêmicos interdisciplinares, objetivando investigar as estratégias de inserção/gestão do Brasil no campo das relações internacionais e sua trajetória no âmbito da história da Política Externa Brasileira.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

I Seminário Nacional História e Contemporaneidades

Festa do Livro Cariri, nas dependências da URCA, em 17 de setembro de 2013.
Realizou-se esta semana (17-21/09/2013) o I Seminário Nacional de História e Contemporaneidades, na Universidade Regional do Cariri (URCA), em Crato-CE, que explorou “as dimensões políticas da história e o futuro do passado”.
No primeiro dia (17/09/2013), à tarde, funcionaram oito minicursos. À noite, foi aberta a “I Festa do Livro Cariri”, que expõe e vende dezenas de títulos, alguns dos quais voltados, especificamente, para os vários domínios da história. Em seguida, procedeu-se a abertura oficial do evento, com mesa composta pelos professores Otonite Cortez, Reitora da URCA, Francisco Damasceno, presidente da seção regional do Ceará da Associação Nacional de História (ANPUH) e docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Fátima Pinho, Chefe do Departamento de História, e Sônia Menezes, da coordenadora do Seminário.
Jucieldo Alexandre (URCA) e
Dilton Maynard (UFS)
Finda a cerimônia de abertura, o professor Jucieldo Alexandre (URCA) coordenou a mesa redonda intitulada “Cultura histórica, mídias e os usos do passado no tempo presente”, reunindo os professores Dilton Maynard, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Antônio Clarindo de Souza, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Sônia Meneses (URCA).
Abrindo as falas dessa primeira mesa, Dilton Maynard (UFS) discutiu a necessidade de o historiador repensar o seu lugar no estabelecimento e na crítica dos acontecimentos no tempo presente, onde se vive uma espécie de “cultura de convergência”, ou seja, a ideia de que um conjunto de mídias pautam o acontecimento e não apenas um veículo ou linguagem. No “cablegate”, por exemplo, várias mídias, novas e tradicionais, como jornais e sites da internet, foram os responsáveis pela legitimidade concedida às notícias que denunciaram a espionagem dos Estados Unidos sobre governos de vários países. A morte de Osama Bin Laden, outro exemplo, foi primeiramente noticiada no Twitter, por um dos vizinhos do terrorista assassinado, sendo misteriosamente excluída três dias depois. Esses exemplos nos levam a pensar em novos procedimentos do historiador para acessar, ler, citar, referenciar esse novo tipo de documento e a problematizar os os meios de controle aos quais somos submetidos quando nos utilizamos das novas mídias.
Na segunda fala, Clarindo Souza (UFCG) abordou as questões do bullyng em sites e nas redes sociais, flagrados nos últimos cinco anos.  Deu exemplos de situações nas quais são manifestados preconceitos de natureza étnicos e estéticos contra indivíduos e coletivos sociológicos – nordestinos, gordos, gays –, mediante o uso descontextualizado de imagens e sons. Os exemplos contemplaram várias situações em que times de futebol e cultos afro-brasileiros, juntamente com seus praticantes, são sistematicamente ridicularizados. As redes sociais, contraditoriamente, incentivam os usuários preconceituosos e também os seus críticos a se manifestarem. Fornecem, por um lado, a liberdade de expressão da opinião de pessoas que desejam feedback  e, por outro, o poder para que essas mesmas pessoas anunciem não se importar com as críticas. As redes, por fim, onde predomina a expressão estética em detrimento da expressão da racionalidade, criam um acervo de fontes que não para de crescer e que pode servir de apoio a uma relevante história social, sobretudo aquela que trata da ausência de traços diacríticos dos seus usuários, dada velocidade com a qual os perfis são atualizados.
Clarindo Souza (UFCG) e
Sônia Meneses (URCA)
A mesa redonda foi encerrada por Sônia Meneses que abordou a cobertura das manifestações populares de 1992 e de 2013, efetuada pela revista Veja. Considerada suporte sensacionalista, de ideologia conservadora, a revista assume o lugar de representação e, concomitantemente, de controle das vozes do povo nos dois episódios. O exame da cobertura revela aquilo que alguns pesquisadores nomeiam de “processo de consciência”, ou seja, a transformação do disperso em claramente explicável. Analisando as capas e as reportagens que abordaram o “Fora Collor” e o “Vem pra rua”, é possível identificar elementos recorrentes no trabalho dos meios de comunicação de formulador narrativas a respeito do cotidiano da população. Ambas eram manifestações populares e foram dadas a ler como uma espécie de “despertar do povo”. As diferenças, contudo, são marcantes. Em 1992, as manifestações são possibilidades em torno de um acontecimento maior – o impeachment. Em 2013, as mutifocadas manifestações causam perplexidade e a revista opera uma seleção que serve, obviamente, aos reais controladores do periódico. O discurso de uma “velha mídia”, como a Veja, vai, então, modificando-se ao sabor dos seus interesses e das atividades dos manifestantes, colocando dificuldades aos historiadores do tempo presente que se empenham na compreensão desses eventos.
O segundo dia (18/09/2013) do Seminário iniciou-se com a mesa redonda “História, profissionalização e os desafios da pesquisa no século XXI”, coordenada pela profa. Jane Semeão (URCA).
A primeira apresentadora, profa. Margarida Oliveira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), informou sobre um projeto desenvolvido em sua Instituição, que põe em prática o seguinte princípio: a história tem uma função social e esta função pública deve ser cumprida pelos profissionais, desde o seu período de formação. O grupo de pesquisa, formado por alunos de graduação e de pós-graduação, além de professores do Departamento de História da UFRN, oferta serviços à própria universidade, atuando na produção de conteúdos históricos para TV, rádio, jornal e internet. Trata-se de um trabalho interdisciplinar que articula conhecimento histórico e formas específicas de comunicação, elaborando instrumentos de divulgação para públicos de interesse diverso.
Jane Semeão (URCA), Francisco Damaceno (UESC), Margarida Oliveira (UFRN) e Aryana Costa (UERN).
O prof. Francisco Damaceno, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), traçou um quadro da oferta de cursos de licenciatura em história no estado – sete cursos em atividade, entre instituições públicas e privadas. Apontou a carência de recursos financeiros – bolsas para pesquisa discente, deslocamentos –, as dificuldades de contratação de professores, a ausência de diálogo entre os cursos, concorrência entre as instituições, desarticulação entre as disciplinas da grade curricular e a ausência de especialistas – história da América, por exemplo. Por fim, afirmou que as possibilidades de atuação do profissional de história incluem o trabalho nos museus, arquivos e redações de jornais, ainda que o principal campo seja o ensino, marcado por baixos salários e ausência de estímulo à qualificação. Esses são os desafios locais a serem enfrentados, com o auxílio, inclusive, da legislação que prescreve a profissionalização do historiador.
O terceiro palestrante da mesa, profa. Aryana Costa, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), discutiu a regulamentação do profissional de história, concentrando-se relação formação e regulação. Ela problematizou os perfis do profissional de história do período 1990 e 2010 e a natureza dos projetos de lei que prescrevem a profissão, defendendo uma história dessas trajetórias que considere as diferentes circunstâncias nas quais foram formatados os documentos. Em seguida, descreveu as grades curriculares de cursos de licenciatura em história, produzidos entre 1935 e 2004, e comentou sobre as características e as limitações dos projetos legislativos que trataram da profissão de historiador nos últimos 15 anos.
Clarindo Souza (UFCG) no minicurso "Tudo que você queria saber sobre história cultural e tinha medo de 
perguntar a um historiador social".
Após as falas da “mesa redonda”, os graduandos iniciaram a apresentação das suas pesquisas junto às seções coordenadas que abordaram história e patrimônio cultural, ensino, gênero, meio ambiente, movimentos sociais, religiosidades, intelectuais, cultural política, literatura e tempo presente.
À tarde, oito minicursos tiveram continuidade. Também foram iniciadas as atividades dos simpósios temáticos "História, religião e religiosidades", coordenado por Maria Paula Cordeiro (URCA) e Maria de Fátima de Morais Pinho (URCA), e "História política do Nordeste", sob a direção de Cristiano Luís Christillino (UFPE).

Apresentação do trabalho de Jheovanni de Abreu (penúltimo, da esquerda para a direita), "Metafísica do amor no pensamento
de Arthur Schopenhauer", ns seção coordenada "História da ciência, intelectuais e cultura política", em 19/09/2013.
Ana Maria Mauad (UFF)
À noite, a prof. Ana Maria Mauad, da Universidade Federal Fluminense (UFF), proferiu conferência intitulada “Como nascem as imagens? O fotógrafo, a moça e uma flor”. Partindo das categorias de “horizonte de expectativas”, “espaço de experiência” e “regime de historicidade”, Mauad questionou a razão de a imagem ainda representar um desafio para o trabalho do historiador. Afirmou, em seguida, que toda imagem tem uma biografia, ainda que nem sempre de trajetória linear e, também, que elas nascem das práticas sociais de representação do mundo. Assim, empregando a imagem da “moça com uma flor, frente a um grupo de soldados armados” (1967) e outras cenas semelhantes, flagradas nos protestos de junho de 2013, no Brasil, demonstrou como a referida imagem tornou-se uma foto-ícone, ou seja, uma fotografia que se “entranha na memória” –, neste caso, o protesto pacífico –frequentemente retomada para atribuir o mesmo sentido, em outros tempos e espaços. Hoje, os dispositivos fotográficos digitais e a exponencial capacidade e facilidade de reproduzir imagens não contribuem para a produção de fotos-ícones. O que comanda a produção hoje é a série de imagens, mas a foto-ícone não perde a sua função, já que é também revelada nessa nova forma de produção de sentido.
Alênio Noronha (UECE), Priscila Regis (URCA) e Gilberto Nogueira (UFC).

Alexandre Barbalho (UECE)
Os trabalhos da quinta feira (19/09/2013) foram iniciados com a mesa redonda “Patrimônio cultural, políticas públicas da memória e o problema dos novos acervos”, coordenada pela profa. Priscilla Régis (URCA). Gilberto Nogueira (UFC) relacionou as ideias de patrimônio às categorias de “horizonte de expectativas” e “espaço de experiência” e descreveu processos de transformação dos sentidos de prática conservacionista no Brasil, ao longo do século XX.  Prof. Alexandre Barbalho (UECE) ressaltou as necessidades humanas da memória e do esquecimento e enfatizou o caráter político de todas as práticas preservacionistas. Como exemplo, citou a eleição dos monumentos representadores da identidade da cidade de Fortaleza, via campanha midiática, onde a tentativa de “capturar” a memória (oficial) da cidade esteve submetida a interesses comerciais privados. O Prof. Alênio Noronha, da Universidade do Vale do Acaraú (UVA) e representante do setor de Patrimônio Cultural da Prefeitura Municipal de Fortaleza, encerrou as falas, tratando dos novos acervos, como o áudio visual. Ele exemplificou e ressaltou o valor dos mesmos como prova jurídica, instrumento de mediação da lembrança e de compreensão do passado. A mesa foi seguida por uma seção de autógrafos concedidos por Gilberto Nogueira (UFC).
Ítalo Bezerra (URCA)
Á noite, a mesa redonda coordenada pelo professor Ítalo Bezerra (URCA), discutiu o “Ensino de história, usos do passado e cidadania”. Iniciando os trabalhos, a prof. Adelaide Gonçalves (UFC) apresentou um panorama das atividades educacionais desenvolvidas no âmbito dos movimentos sociais ligados à questão da terra e informou sobre as relações entre as finalidades e práticas das escolas e às suas implicações na construção da memória e na crítica à história oficial brasileira. Na sequência, o prof. Itamar Freitas (UFS) abordou as ligações entre teoria, didática da história e cidadania, tendo como fonte básica os documentos produzidos por Charles Langlois, entre 1881 e 1937. Defendeu a necessidade de os professores formadores explorarem a natureza, a relevância e as limitações da “qualidade de ser cidadão” nas matérias de teoria, epistemologia, história da historiografia e introdução à história. Por fim, o prof. Egberto Melo comentou a recente ampliação do prestígio das questões e temas ligados ao ensino de história no Brasil e o concomitante interesse dos professores radicados nos departamentos de história. Afirmou a necessidade de acompanhar a trajetória da Associação Nacional de História (ANPUH), ao longo da segunda metade do século XX, como forma de melhor entender o crescente interesse dos historiadores pelos usos escolares do passado.
Renata Marinho (URCA), Rosilene Melo (UFCG), Josinete Lopes (URCA) e Clarisse Fukelman (PUC-RIO).

Os trabalhos do último dia do Seminário (20/09/2013) foram iniciados com a mesa redonda “História e transdisciplinaridade – o olhar de outros saberes do passado” – coordenada pela profa. Josinete Lopes (URCA). Na primeira fala, a profa. Renata Marinho (URCA) inventariou tendências teóricas e categorias que exploram as formas de agir, pensar e sentir, postas em circulação entre os séculos XIX e XX e concluiu que, hoje, a antropologia tende a examinar experiências coletivas de modo polifônico, policêntrico, enfim, policultural. Em seguida, a profa. Rosilene Melo (UFCG) apresentou e problematizou a função das imagens produzidas por Manoel Graciano, Mestre Noza, Índio e Mino, entre outros artistas, afirmando que as mesmas são expressão de um pensamento, que condensam informações, possuem agência e expressam – criam – um mundo. Daí a ideia de classificá-las como imagens cosmológicas. A mesa foi encerrada com a fala da profa. Clarisse Fukelman, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que discutiu a “representação, da representação da representação...”, ou seja, os usos pedagógicos que a produção televisiva faz do conhecimento histórico, enfatizando a necessidade de considerar conceitos e práticas da teoria da história, teoria literária, semiologia e da estética da recepção na produção de minisséries e novelas.
Na segunda parte da manhã, a exemplo do ocorrido nos dois dias anteriores, os alunos de graduação apresentaram suas comunicações em seções coordenadas.
Natália Santos (URCA), Lívia Souza (URCA), Maria do Carmo Oliveira (URCA) e Bárbara Silva (UFS), que apresentaram
trabalhos no simpósio temático "História e ensino de história", coordenado pelos profs. Egberto Mello (URCA) e Aruana Costa
(UERN), em 20/09/2013.
À noite, procedeu-se à cerimônia de encerramento, onde a prof. Sônia Menezes (URCA) prestou uma homenagem ao prof. Ciro Flamarion Cardoso, falecido recentemente. Em seguida, as professoras Fátima Pinho (URCA) e Otonite Cortez (URCA) agradeceram aos palestrantes convidados e aos alunos e docentes que se encarregaram voluntariamente das tarefas do evento. Por fim, o prof. Fernando Catroga, da Universidade de Coimbra (Portugal), proferiu conferência, coordenada pela profa. Adelaide Gonçalves, com o título “O historiador e o juiz na balança pela veracidade histórica”.
Catroga afirmou que a tradição da história como tribunal vigorou da teologia da história à filosofia da história e assim manteve-se na contemporaneidade. A problematização do documento, no final do século XIX é, talvez, o ponto em comum entre a investigação historiográfica e o processo judicial. Pensando sobre essa tese, ele confirma que todo processo judicial é fundado em fatos que “realmente aconteceram”. Mesmo a ideia de história, desde a experiência grega, aristotélica, tem o sentido de testemunho – sobretudo, ocular – e de inquérito. A palavra justiça, por outro lado, significa autoridade – “o juiz disse”. 
Fernando Catroga (Universidade de Lisboa)
No tempo presente, vivenciamos a compreensão de que o julgamento manifesta fragilização, diante dos júris forjados. Da mesma forma, muitas investigações históricas apresentam-se como fraudes por suas finalidades e atitudes consagradoras de determinados personagens ou ideologias. Além disso, o historiador não faz a “história que vê”. Ele tem que ver para além do que se olha, tem que agir metodicamente. Citando René Rémond, Catroga afirmou que os historiadores não são acusadores, advogados ou juízes. O que há na história e não há no processo judicial, citando Ginzburg, é o contexto. Os juízos independem dos contextos. Eles são personalizados e fundam-se no cumprimento ou descumprimento da norma.
Catroga também esclareceu que trabalho do juiz resulta em sentença imperativa. O trabalho do historiador, ao contrário, não gera esse tipo de sentença. Ele é, sim, livre para explicar-compreender. O objeto do juiz, o crime, por exemplo, prescreve. O objeto do historiador, em contrapartida, nunca prescreve, podendo ser constantemente revisitado. Finalizando a sequência de comparações, Catroga  afirmou que o juiz age binariamente - sim/não, enquanto o historiador pode afirmar que, "na fase atual da pesquisa, sim" e, ao final, "não" ou "talvez" e, ainda, que as obras do juiz são fechadas e a dos historiadores sempre abertas à visitação. Essas características nos induzem a pensar, conclui Catroga, que o historiador deve expor quaisquer princípios críticos, mas manter um contrato permanente com a "veracidade" na história.
Professores da URCA, Fátima Pinho, Francisca Anselma, Iarê Lucas, Otonite Cortez e Sônia Menezes, junto aos professores
Fernando Catroga (Universidade de Coimbra) e Adelaide Gonçalves (UFC).
Monitores do I SNHC confraternizam-se com o prof. Catroga: (da esquerda para a direita) Angelica Ribeiro, Romario Rodrigues, 
Andréa Araújo, David Samuel, Lívia Sousa, Rayanne Silva, Vanusa Ferreira, Fernando Catroga, Raquel Modesto, Pryscylla
Cordeiro, Alexsandra Goiana, Raysa Carolinne.
Assim encerrou-se o I Seminário Nacional História Contemporaneidades, com planos para que, em 2015, se repita com muito mais êxito.

domingo, 30 de setembro de 2012

Tempo presente nos currículos (2007/2012)

Meu nome era David, mas soava muito antiquado. Então eu reduzi para DVD.
(1999 Randy Glasbergen. www.glasbergen.com)

Que espaço é destinado ao tempo presente nos currículos de história nos anos finais do ensino fundamental no Brasil? Qual sua distribuição ao longo dos anos escolares? Qual a natureza da história do presente?
A análise das propostas permite-nos concluir que, majoritariamente, os currículos escolares para os anos finais do ensino fundamental, produzidos entre 2007 e 2012, são estruturados de acordo com os quatro períodos clássicos. Ainda que busquem incorporar a perspectiva da multiplicidade temporal e espacial, cada ano de ensino corresponde a acontecimentos/temáticas de pelo menos duas das divisões: Pré-história e Antiga para o sexto ano, Idade Média e Moderna para o sétimo, Moderna e Contemporânea para o oitavo. A exceção está presente no nono ano que, normalmente, concentra os eventos relacionados à transição do século XIX para o XX, até princípios do século XXI.
É justamente nesse último período onde a história do presente está “diluída”. Observamos que, apesar da preocupação em incorporar as experiências do presente, demonstrada, por exemplo, em alguns dos objetivos do ensino de história – como o de possibilitar aos escolares compreenderem a realidade do mundo em que vivem – e da utilização, em alguns casos, da expressão “tempo presente dos alunos”, os currículos não definem a história do presente nem a diferenciam do contemporâneo.
Embora alguns currículos empreguem os vocábulos “contemporâneo” e/ou “atual” para nomear uma temporalidade (MS, MG, RJ e PB) – ou, pelo menos, a ideia de um tempo próximo –, uma diferenciação temporal em relação ao último período da história também não é discutida nesses documentos. Os conteúdos que constituem o “Mundo contemporâneo” e o “Brasil atual” foram selecionados sem qualquer informação que justificasse tal recorte, dando-nos a impressão de constituírem sub-períodos do Contemporâneo.
Apesar de o tempo presente ocupar grande espaço nas propostas curriculares, considerando tanto as balizas temporais do pós-guerra e da queda do muro de Berlim, constatamos que as discussões da historiografia sobre esse campo de investigação não são levadas para os currículos. O que prevalece é o entendimento do diálogo entre as épocas, ou seja, a exigência historiográfica e pedagógica de partir do presente do aluno para a compreensão do passado e historicização de sua realidade. Paradoxalmente, a “época contemporânea”, que para nós já não é mais tão contemporânea, prolonga-se até os “nossos dias”.


Para citar este texto
FREITAS, Itamar, SEMEÃO, Jane. Tempo presente nos currículos escolares de história do Brasil para os anos finais do ensino fundamental (2007/2012). Boletim Tempo Presente (UFRJ), Rio de Janeiro, v. 6, set. 2012. Disponível em: <http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&view=article&id=5803:tempo-presente-nos-curriculos-escolares-de-historia-no-brasil-para-os-anos-finais-do-ensino-fundamental-2007-2012&catid=87:edicao-do-mes-de-setembro&Itemid=221>.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Tempo presente e livro didático de história

O tempo presente francês. Vinheta da página inicial do site do Institut d'histoire du temps présent - IHTP.
A noção de história do presente se constituiu e se consolidou como campo de pesquisa histórica apenas na segunda metade do século XX, embora comumente remontemos aos gregos o interesse dos historiadores pelos acontecimentos do seu tempo. A criação em 1978 do Institut d’histoire du temps présent na França (IHTP), referência internacional na reflexão sobre as possibilidades de historicização do “vivido”, representou passo importante em direção a institucionalização desse campo de pesquisa.
Apesar das reticências enfrentadas relacionadas a questões de ordem metodológica (Que fontes utilizar? Como fazer sua critica?); de como lidar com a inserção do historiador no tempo narrado; de cronologia (Quando começa e quando termina?) e de definição conceitual (História do presente, história do tempo presente, história próxima ou história imediata? Quais as diferenças?), aos poucos as interdições impostas à abordagem do coetâneo pelo século XIX foram superadas.
A história praticada na segunda metade do século XX, especialmente a partir dos anos 1970, é um dos fatores que explicam essa virada. A chamada renovação historiográfica, conduzindo à quebra dos paradigmas da história e proporcionando o interesse dos historiadores pelas mentalidades, pelo político e cultural, por novos sujeitos (mulheres, negros, índígenas etc) e novas fontes, contribuiu para a legitimidade desse campo de investigação. Além dessa motivação acadêmica, podemos acrescentar: a aceleração do tempo vivido provocando rápidas transformações ao longo da segunda metade do século passado e início do XXI; o papel que tem exercido e o lugar que tem ocupado os meios de comunicação no mundo contemporâneo e as demandas, pressões sociais surgidas em meio às efemeridades que têm marcado o atual regime de historicidade, definido por Hartog como presentista (2010).
Todos esses fatores permitiram a revisão de uma das premissas metodológicas para a escrita científica da história tão cara aos especialistas do XIX e questionada por aqueles que no século subsequente enveredaram com insistência na abordagem do presente: a exigência de distanciamento temporal do historiador para com seu objeto. Nessa nova configuração, o historiador agora é chamado para prestar contas também do presente, a contribuir para a construção de explicações para os acontecimentos atuais, para as questões étnicas, religiosas, econômicas, tecnológicas, políticas, sociais e culturais que têm surgido ou ressurgido nas sociedades contemporâneas e provocado aceleradas transformações.
A sedimentação da história do presente traz consigo também uma função social. Nascida a partir de demandas das sociedades contemporâneas (CHAUVEAU & TÉTART, 1999), podemos afirmar que ela é fundamental para a “constituição do sentido da experiência do tempo”, para a orientação da vida prática (RÜSEN, 2001) Entre os que se dedicam a investigar o presente, parece ser consenso que construir uma reflexão histórica sobre o vivido contribui para combater os efeitos do presentismo que, de acordo com Hartog (2010), caracteriza-se pelo “expansionismo do presente”, por sua valorização exacerbada prensando as pessoas entre um passado que parece muito distante e que corre o risco de cair no esquecimento e um futuro dominado pela incerteza.
As palavras de Rioux expressam bem essa preocupação:
Como não sentir [...] que uma reflexão histórica sobre o presente pode ajudar as gerações que crescem a combater a atemporalidade contemporânea, a medir o pleno efeito destas fontes originais, sonoras e em imagens, que as mídias fabricam, a relativizar o hino à novidade tão comumente entoado, a se desfazer desse imediatismo vivido que aprisiona a consciência histórica como a folha de plástico ‘protege’ no congelador um alimento que não se consome? (1999, p.46)
Utilizada inicialmente para se diferenciar do contemporâneo, entendido como período/época histórica, aos poucos os acadêmicos foram dando à expressão, história do tempo presente, contornos definidos. Metodologia, fontes, definição conceitual e a questão da presença do historiador no tempo narrado foram as questões que nortearam as discussões com o objetivo de retirar as desconfianças que desde os oitocentos impediam converter o presente em historiografia acadêmica. O argumento predominante, de forma geral, é que as mesmas regras que normatizam a produção do conhecimento histórico relativo às outras temporalidades são as mesmas para o tempo vivido (BERNSTEIN; MILZA, 1999). Os objetos também se diversificaram bastante, do foco do político passamos para temáticas que dizem respeito ao social, econômico e cultural.
Mas apesar de superadas as interdições à historicização do presente, duas grandes dificuldades ainda permanecem na discussão sobre a natureza dessa história. A primeira é de ordem conceitual. Na grande maioria dos textos em que a questão é abordada, a expressão é empregada sem que haja uma preocupação com sua conceituação (história do presente, história do tempo presente, história próxima, história recente) – algumas vezes encontramos a utilização de mais de uma delas numa mesma obra. De difícil precisão, ela tem sido muito mais caracterizada por aquilo que não é, ou do que não trata[1].
Outro elemento de discordância gira em torno de qual seria a matriz do tempo presente. Enquanto alguns trabalham com a baliza do pós Segunda Guerra Mundial, outros delimitam 1989 – que representa o fim do socialismo real com a queda do muro de Berlim- como o marco do tempo presente. Na base dessa dificuldade está, certamente, uma das características próprias dessa história, o de seus limites temporais serem permanentemente móveis (AROSTEGUI, 2004; ROUSSO, 2007), descartando, dessa forma, a possibilidade de ser entendida/confundida como um período ou sub-período da história. Nesse sentido, teríamos para cada experiência nacional ou continental uma demarcação particular referenciada em algum acontecimento traumático.
Mas na historiografia didática, como o tempo presente é abordado? Sabemos que a incorporação de eventos próximos à experiência dos alunos ocorre desde o século XIX, com a constituição da chamada história contemporânea. Como então o livro didático, que tem procurado acompanhar as novas demandas epistemológicas da ciência de referência, educacionais e sociais que vem se apresentando em nossa sociedade desde finais do século passado, leva essa discussão para seu interior? Há uma reflexão sobre esse campo? Que marco cronológico é utilizado? O que do tempo presente é abordado? Quais seus usos no ensino?

O tempo presente no livro História: série novo ensino médio e em História em foco de Divalte Garcia Figueira
História: série novo ensino médio, volume único, foi lançado em 2002 e reeditado em 2003, 2010 e 2011. Apresenta proposta curricular “integrada”, organizando os conhecimentos factuais, conceituais e procedimentais em ordem cronológica no conhecido quádruplo história antiga, média, moderna e contemporânea. A mesma organização orienta História em foco (2011), também destinada ao ensino médio, mas disposta em três volumes.
As obras foram escolhidas por sua regularidade de circulação ao longo da última década, como também pela legitimidade reivindicada pelo autor no campo da pesquisa histórica e do ensino de história para a escolarização básica. É a própria editora Ática (detentora dos direitos autorais) quem divulga na página de créditos: Divalte Figueira é mestre em História pela USP, professor de história do ensino médio e autor de Cidades históricas e o barroco mineiro (2000) e Soldados e negociantes na Guerra do Paraguai (2001).
Para examinar a presença de referências ao tempo presente na obra (definições, marcos temporais, usos no ensino, níveis de experiência humana abordados) optamos por selecionar alguns indicadores que poderiam incorporar algumas das discussões acima. Nossa hipótese é que as possibilidades podem situar-se: 1. nos elementos pré-textuais (apresentação e sumário) 2. nos textos principais referentes à introdução à história; 3. nos textos principais e respectivos exercícios que apresentam a experiência contemporânea (com ênfase na experiência brasileira); 4. em sessões específicas que exploram o desenvolvimento de habilidades de relacionar passado/presente, distribuídas por toda obra; 5. nas instruções metodológicas disponibilizadas no manual do professor. Vejamos, agora, os resultados.

Posse de Fernando Collor de Melo como presidente da República: início do presente da história do Brasil.

Indícios do tempo presente nos elementos pré-textuais
De início, questionemos: a que se destina o livro, quais são os seus objetivos? Aqui, nos elementos pré-textuais, é possível identificar preocupações com a experiência do presente mediante o emprego de alguns vocábulos indiciários. Em 2002, os editores atribuem à obra a tarefa de auxiliar o aluno a “enfrentar as exigências de um mundo cada vez mais globalizado”, atendendo às prescrições legais para o ensino médio. No ano seguinte, surge o “vestibular” como preocupação, além da intenção de contribuir para a “formação cidadã” do aluno. Em 2010, a formação cidadã permanece, acompanhada da vantagem de fornecer “os acontecimentos e processos mais importantes da história”. Na primeira edição da História em foco (e última versão da história escolar para o ensino médio produzida por Divalte Figueiras), por fim, é a realização das “provas do Enem e dos vestibulares mais exigentes” que norteia as intenções da autoria. Aqui também os “processos importantes” ou o “tudo sobre a história geral e do Brasil”, presentes nas edições de 2003 e 2010, é substituído pela compreensão dos “acontecimentos” e “processos históricos mais importantes” (Cf. FIGUEIRA, 2002, p. 3, 2003, p. 3, 2010, p. 3, 2011, p. 3).
Logo na apresentação os livros destacam o “governo Lula” e a “globalização”, o mundo “globalizado”. Também informam sobre a sessão “Leitura e debate”, cujo objetivo é desenvolver a habilidade de relacionar “o estudo da história” e a “vida concreta” do aluno (FIGUEIRA, 2003, p. 3). Mas é no sumário que os indícios são mais robustos. Em ordem cronológica das edições, constatamos o destaque para a experiência brasileira como último tópico em todos títulos analisados: “O Brasil de hoje” e “Brasil: a construção do futuro” (nas três edições seguintes). Examinemos, então, o lugar do “hoje” e da “construção do futuro” no conjunto da obra, focando unidades/capítulos que exploram a experiência brasileira, já que os títulos de Figueira destinados ao ensino médio não reservam tópicos para temática da introdução à história.

Conhecimentos e habilidades sobre o “hoje” e o “futuro”
De início, vejamos o lugar do contemporâneo nas obras de Figueira. Como podem acompanhar pela tabela n. 1, o período que se inicia com a Revolução Francesa mantém o espaço nas três edições de História: série novo ensino médio. São 54% do espaço em páginas, restando 46% para todas as outras “idades”. Concluímos então que o contemporâneo é majoritário. No título História em foco, entretanto, esse domínio cai para 35%. A explicação para essa mudança nos parece bastante simples. A distribuição em três volumes (o História: série novo ensino médio é volume único), obriga a uma adequação entre a distribuição de páginas e a distribuição dos conhecimentos/períodos pelos três anos do ensino médio.
Quanto ao espaço ocupado pela experiência brasileira – a que se refere ao “hoje” e ao “futuro” –, observamos idêntica constância nos volumes de História: série novo ensino médio e a ampliação em História em foco (apesar de o espaço contemporâneo ter diminuído em relação à edição volume único). Isso nos leva à conclusão de que maior espaço em volumes e páginas significa maior espaço em páginas para a experiência brasileira, tanto nas páginas do contemporâneo quanto nas páginas do Brasil “hoje”, como demonstrado na tabela 2.
Constatamos, então, a hegemonia do contemporâneo na obra de Figueira e a ampliação do espaço concedido à experiência brasileira e contemporânea quando os conteúdos são distribuídos em três volumes. Mas, qual a natureza desse contemporâneo e da experiência do “hoje” brasileiro?
Ambos os títulos conservam idênticos conteúdos factuais, conceituais e procedimentais. O contemporâneo encerra, por exemplo, os acontecimentos da revolução francesa, independências na América (inclusa a do Brasil), Brasil império, Brasil república, guerras mundiais, guerra fria e globalização. As variações ficam por conta dos títulos das unidades: “um mundo bipolar” transforma-se em “A terra dividida” (relativo à guerra fria), “Sob o domínio do capital” transforma-se em “O domínio da burguesia” e assim por diante.
Em relação à experiência brasileira, a escrita se repete, ou seja, são modificados os títulos de algumas unidades. “Rumo ao terceiro milênio”, por exemplo, (em virtude do esgotamento do novo milênio como novidade), passa a chamar-se, nas três edições seguintes, “Ricos e pobres no mundo globalizado”. O mesmo ocorre com o tópico referente ao Brasil: “Brasil de hoje”, no exemplar de 2002, é substituído por “Brasil: a construção do futuro”.
Por fim, o sentido de “hoje”. Trata-se de um conjunto de acontecimentos de caráter político e econômico que incluem a experiência dos governos Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula. Como vemos, “hoje” é um conjunto de acontecimentos decorrentes da ação do Estado (políticas públicas, política exterior), das mudanças promovidas pela sociedade civil (escolhas eleitorais, demandas por políticas públicas) e, em menor grau, de desdobramentos de crises econômicas e políticas ocorridas em outras partes do mundo. Dizendo de outro modo, não é tanto a derrocada do socialismo real que marca a experiência inicial do presente (o “hoje”) do Brasil, quanto as vicissitudes da política interna local (corrupção, impeachement etc.).
Um dado também importante, que denuncia a natureza do “hoje”, é a distância entre o tempo vivido pelo historiador (o tempo do encerramento da produção do livro didático) e o tempo narrado (os acontecimentos referidos na obra). Podemos constatar que essa diferença é mínima, ainda que desigual.
Pela tabela 3, é fácil constatar que o “hoje”, nos conhecimentos factuais e conceituais relativos à experiência brasileira, é um tempo que se inicia com os acontecimentos destacados da administração Collor de Melo e encerra-se com os fatos do mesmo gênero, relativos ao governo em vigor, coincidentes (ou distantes em até três anos) em relação ao tempo vivido pelo autor/editor. Em outras palavras, o hoje “brasileiro” não se apresenta como escala móvel, já que possui um ponto de partida que não se modifica (o governo Collor), indicando a provável consolidação de um novo período para a história do Brasil.
Por outro lado (cruzando os dados das tabelas 2 e 3), é também fácil verificar que a experiência narrada se expande, mas o número de páginas se conserva (ao menos no título que reúne três edições – História: série novo ensino médio). Como isso é possível? Ora, o ajuste é bastante simples. Na edição de 2002, os conhecimentos referem-se, obviamente, às épocas de Fernando Collor, Itamar Franco (que não ganha espaço em separado) e FHC. No ano seguinte, com a eleição de Lula, o autor/editor exclui textos que narram a experiência desses três personagens para tratar do novo governo. Na edição seguinte (2010), os espaços de Collor/Itamar parecem consolidar-se. FHC, ao contrário, perde ainda mais “território” e o governo Lula ganha mais três páginas[2]. Essa prática de adequar o espaço ao tempo, rendendo maior espaço ao recente ou recentíssimo, pode configurar a escrita da história didática como uma espécie de historiografia aditiva, tal como a descreve Reinhart Koselleck  (Cf. 2006, p. 276), demonstrando uma preocupação mercadológica e acadêmica (que é também mercadológica): atualização historiográfica (efetuada mediante fontes jornalistas, sobretudo).
O “hoje” e também o “futuro” são abordados nos exercícios sobre os conhecimentos referentes aos últimos textos citados que tratam da experiência brasileira. Os enunciados são mantidos, com poucas alterações entre os quatro exemplares examinados.

Análise
2. Os últimos dez anos da história econômica brasileira foram marcados por intenso processo de privatização e de abertura do mercado ao capital estrangeiro. Reúna-se com um grupo de colegas e discutam as consequências dessa política para o futuro do Brasil
Trabalhando o contexto
4. Reúna-se com um grupo de colegas e discutam quais são os principais problemas do Brasil hoje. Depois, preparem um seminário sobre o tema e apresentem para a classe.
Síntese
Forme um grupo com seus colegas e elaborem uma redação sobre o Brasil no ano 2050. Não se esqueçam de levar em conta o cenário mundial e os problemas discutidos durante os seminários da classe (FIGUEIRAS, 2002, p. 425).
Ampliando o conhecimento
Como está hoje o movimento estudantil? Quais são suas bandeiras? O que informam as páginas da UNE, da UEE e de outras organizações estudantis na internet? (FIGUEIRAS, 2011, p. 251, v. 3).
O “hoje”, nos exercícios, portanto, significa um presente relacionado ao ano de uso do livro didático com abrangência subjetiva em termos de níveis de experiência humana. O mesmo se pode dizer a respeito do “futuro”, posto em relação aos acontecimentos dos últimos dez anos. Quanto ao futuro situado em 2050, fica a questão aberta sobre a utilidade/finalidade dessa questão para o aprendizado histórico mediante o uso do livro didático.

O presente como desenvolvedor de habilidades
Pelo último exemplo do tópico anterior, é fácil perceber que os exercícios constituem uma seção do livro didático. Da mesma forma, está claro que essa seção tem o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de determinadas habilidades (no caso, analisar, contextualizar, sintetizar e ampliar o conhecimento). Seções, portanto, podem ser definidas como “os constituintes do menor segmento orgânico do livro didático, isto é, a menor parte da obra que pode ser lida e compreendida autonomamente” (FREITAS, 2010) e que tem a finalidade de explorar a capacidade de retensão e de compreensão dos conteúdos substantivos, como também, de desenvolver procedimentos caros à pesquisa histórica. Em que medida, então, as referências ao presente poderiam subsidiar o cumprimento dos objetivos nas seções dos livros aqui examinados?
As seções mais significativas para o nosso estudo são as “Atividades de final de capítulo”, que estão subdivididas em “Para sistematizar o estudo” e “Leitura e debate”. A primeira explora cinco habilidades: relacionar conteúdos, leitura e interpretação, contextualização, integrar diferentes disciplinas e ampliar o conhecimento. A segunda, como o próprio título anuncia, explora as habilidades de leitura e discussão. A maioria delas, evidentemente, não foi planejada para explorar a relação passado/presente, trabalho específico das subseções “Trabalhando o contexto” e uma das tarefas de “Leitura e debate”.
“Trabalhando o contexto” está presente em todos os títulos e exemplares analisados, mas não é seção fixa. Os enunciados também mantém a estrutura, mas nem todos promovem o relacionamento passado/presente, como nos exemplos que se seguem:
No século XIX, o socialismo resumia as esperanças das classes trabalhadoras de conquistar um mundo com menores desigualdades sociais. Ao longo do século XX, em várias regiões do mundo, os socialistas conquistaram o poder. Faça uma pesquisa para saber qual a situação do socialismo no mundo (FIGUEIRAS, 2003, p. 56. Grifos nossos).
Faça uma pesquisa sobre o papel da Igreja Católica no mundo ocidental atualmente. Destaque ações que podem ser consideradas positivas e aquelas que têm sido objeto de crítica (FIGUEIRAS, 2011, p. 133, v. 1).
Tibério e Caio Graco pereceram na luta pela reforma agrária. Explique por que, tanto na Roma antiga como nos nossos dias, no Brasil, a luta pela terra tem sido acompanhada de violência (FIGUEIRAS, 2010, p. 62).
No Egito antigo, o faraó concentrava todo o poder, comandando a religião, os exércitos, a economia etc. Em grande parte, esse poder estava fundamentado na crença de que ele era um deus. Escreva um texto comparando o poder do faraó no Egito Antigo e o poder dos governantes brasileiros nos dias de hoje (FIGUEIRAS, 2002, p. 23).
“Leitura e debate” é subseção fixa, também presente em todos os títulos, exemplares e volumes analisados. Acompanhemos os exemplos:
Apesar das leis de proteção às crianças existentes em nossos dias, ainda é possível encontrar casos de exploração do trabalho infantil. Com seus colegas de grupo, faça uma pesquisa para descobrir qual a situação do trabalho infantil atualmente no Brasil. Depois, escrevam um pequeno relatório sobre o assunto (FIGUEIRAS, 2010, P. 36).
Hoje, no Brasil, o poder é exercido por um presidente eleito pela população para governar por quatro anos. Compare o sistema defendido por Bossuet e o que vigora hoje no Brasil (FIGUEIRAS, 2002, p. 32).
Discuta com seus colegas e escreva um texto comentando a importância que têm para nossa vida as revoluções [de 1830 e 1848] e as ideias estudadas neste capítulo (FIGUEIRAS, 2003, p. 56).
A crença difundida pelos hebreus influenciou muitas sociedades. Identifique no texto alguns preceitos que fazem parte de nossa sociedade atual (FIGUEIRAS, 2011, p. 53, v. 1).
Se não identificássemos os exemplos – como pertencente a uma ou outra subseção – dificilmente poderíamos estabelecer diferenças. A “situação”, o “papel”, o modo, o “poder”, o “sistema”, a “importância”, a presença, etc. são termos comuns que identificam conhecimentos demandados aos alunos e indicam, apenas, que o presente, nesses casos, não é objeto de cognição. O “atualmente”, “nos nossos dias”, “nos dias de hoje”, “que vigora hoje”, “para a nossa vida”, “que fazem parte de nossa sociedade” são demarcadores temporais, certamente. Mas tal presente aparece como resultado de um longo processo, ou seja, a existência do presente justifica-se pela existência de vários passados. Essa função é melhor compreendida a partir dos resultados colhidos junto ao manual do professor.

O presente no manual do professor
O texto que apresenta a obra e fornece instruções de uso – o manual do professor – está encartado, apenas, nos títulos de 2002 e 2011. Marcos inicial e final, entretanto, fornecem ricas informações sobre mudanças e permanências no projeto pedagógico e historiográfico.
Aqui também o presente é referido com todo o seu campo semântico: “atualidade”, “realidade do aluno”, contemporâneo etc. Mas os sentidos e as funções concentram-se em dois polos, como indicam as citações seguintes:
A proposta que está orientando a reforma do ensino médio insiste na necessidade de se enfatizar a realidade do aluno. Espera-se, por exemplo, que o professor dê menos importância à memorização e que valorize o raciocínio e o espírito crítico. Em vez de apresentar um conhecimento pronto, como se fosse definitivo, o educador precisa estimular a capacidade do aluno de aprender, de descobrir e de resolver problemas, levando sempre em consideração o seu conhecimento prévio [...].
O professor deve reconhecer a importância da contextualização dos conteúdos vistos. Para nós, isso significa ensinar que a história está relacionada com o presente e com a vida do aluno. Em outras palavras, significa que o mundo contemporâneo pode ser interpretado a partir de uma perspectiva histórica (FIGUEIRAS, 2002, Manual do professor, p. 3).
Como podemos constatar, o primeiro sentido (expresso na primeira citação) é de caráter estritamente pedagógico e lembra (embora não explicite) as assertivas da aprendizagem cognitiva verbal significativa, desenvolvida nos Estados Unidos, inicialmente por David Ausubel. O segundo é de caráter estritamente historiográfico e lembra (embora também não explicite) a urgência, no ensino, do conceito de historicidade – caráter de ser histórico, inclusive a realidade vivenciada pelo aluno –, que pode afastar a ideia (nociva), sedimentada no senso comum do aluno, de que a ciência da história estuda o passado em si mesmo.
Trata-se de um casamento bastante conveniente entre teoria da aprendizagem e teoria da história, que legitima a obra perante as prescrições estatais para a educação. Do ponto de vista teórico, entretanto, o casamento apresenta fragilidades. Se entendermos “contextualizar” como fornecer referências em termos de sujeitos, ideias, espaço e tempo para que os alunos compreendam (para que lhe sejam significativos) os conhecimentos apresentados, podemos concluir que o presente está fora do livro didático, uma vez que é referido como “realidade do aluno” e, como tal, é extremamente subjetiva. As atividades citadas no tópico anterior alimentam a conclusão de que o livro didático apresenta-se como um estudo do passado para que o aluno conheça as causas da sua situação atual. A historicização experimentada refere-se ao presente do aluno e não a um presente resultante do trabalho do historiador.
No manual do professor produzido para a edição de 2011, o projeto pedagógico não é modificado e reforça a sua dependência em relação aos “eixos cognitivos definidos na matriz de Referência para o Enem 2009” (FIGUEIRAS, 2001, Manual do Professor, p. 4-5). Aqui, é ainda mais explícito e, consequentemente, segundo o raciocínio que estamos desenvolvendo, ainda mais contraditória a oferta de atividades e a abordagem do presente. Ele informa ser “recomendável que o professor, ao iniciar um novo assunto, comece sempre pelo presente e, a partir daí, faça uma ligação com o passado” (FIGUEIRAS, 2011, Manual do professor, p. 5). O que vemos no livro é o contrário. O presente do aluno é discutido em atividades ao final do capítulo, indicando, portanto, que mesmo em termos pedagógicos a relação é prejudicada, uma vez que o procedimento indicado fica na alçada do professor.

Conclusões
Percebemos, então, que a preocupação em incorporar ao livro didático a experiência do presente é apresentada em seus elementos pré-textuais. Ajudar o aluno a enfrentar o mundo globalizado, relacionar sua vida à história e formar para a cidadania são indícios desse esforço. O próprio sumário, ao colocar como último tópico de discussão o “Brasil de hoje” (2002) ou “Brasil: a construção do futuro” também exemplifica tal tentativa.
Apesar disso, no entanto, Divalte não utiliza a noção de história do presente. Trabalhando com a clássica divisão quadripartite da história, os acontecimentos/temas históricos compõem uma sequencia que parte da Pré-História ao contemporâneo. Mesmo que insinuado, uma diferença temporal em relação a esse último período da história não é discutido explicitamente. Tópicos como “Brasil de hoje” ou “Rumo ao terceiro milênio”, por exemplo, que incluem a experiência dos governos Sarney a Lula em todos os livros e edições, foram assim nomeados sem que uma justificativa para tal recorte e discussão conceitual tenha sido feita.
O que constatamos, portanto, é que as discussões da historiografia sobre o tempo presente, enquanto campo de investigação histórica, não aparecem no material analisado. Seja nos elementos pré-textuais, nos exercícios ou no manual do professor, o presente, lugar de onde se parte para a compreensão do passado e historicização da realidade do aluno, e que vem atender a uma exigência historiográfica e pedagógica, é o que prevalece. Abordar o passado a partir do presente, no entanto, não significa a realização de uma história do presente. Tal prática, que não apresenta definições, funções, ou balizas cronológicas justificadas conceitualmente, está muito mais próxima da historiografia aditiva referida por Koselleck, (do hábito de registrar os acontecimentos contemporâneos ao historiador) em voga há, pelo menos quatrocentos anos, ainda que a construção dos livros analisados não mais ocorra dentro da compreensão do tempo como fenômeno estático e de uma história como mestra da vida.
Posse de Dilma Rousseff como presidente da República: fim do presente da história do Brasil.

Para citar este texto:
SEMEÃO, Jane, FREITAS, Itamar. Tempo presente e historiografia didática: possibilidades de pesquisa com livros de história destinados ao ensino médio (2002/2012). SEMINÁRIO VISÕES DO MUNDO CONTEMPORÂNEO: “AS ESTAÇÕES DA HISTÓRIA – DO INVERNO RUSSO À PRIMAVERA ÁRABE”, 2. São Cristóvão. Anais... São Cristóvão: Grupo de Estudos do Tempo Presente/Universidade Federal de Sergipe, 2012. 1 CD-ROM. Disponível em: < http://www.itamarfo.blogspot.com.br/2012/06/tempo-presente-e-livro-didatico.html>.

Fonte das imagens:
Posse de Fernando Collor de Melo. Disponível em: <www.saraiva13.blogspot.com.br>. Capturado em 9 jun. 2012.
Fernando Collor de Melo. Disponível em: <www.hevertonazevedo.blogspot.com.br>. Capturado em 9 jun. 2012.
Itamar Franco. Disponível em: <www.flavioluizsartori.blogspot.com.br>. Capturado em 9 jun. 2012.
Fernando Henrique Cardoso. Disponível em: <www.maureliomello.blogspot.com.br>. Capturado em 9 jun. 2012.
Posse de Dilma Rousseff. Disponível em: <www.cacoalnews.com.br>. Capturado em 9 jun. 2012.

Referências
ARÓSTEGUI, Julio. La historia vivida. Sobre la historia del presente. Madrid: Alianza Editorial, 2004.
BÉDARIDA, François. Tempo presente e presença na história. In: AMADO, Janaina; CHAUVEAU, Agnés; TÉTART, Philippe. Questões para a história do presente. São Paulo: EDUSC, 1999.
FERREIRA, Marieta de Moraes. História do tempo presente: desafios. In: Cultura Vozes. Petrópolis: Editora Vozes, v.94, n0 3, 2000, pp.111-124. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao_intelectual/arq/517.pdf>. Acesso em: 21/07/2008.
FREITAS, Itamar. O saber em fatias: o livro didático em seções e as seções em livros didáticos de História (1900/2010). Notas para orientação. Nossa Senhora do Socorro, 5 dez. 2010.<http://itamarfo.blogspot.com.br/2010/12/o-saber-em-fatias-o-livro-didatico-em.html>. Capturado em 17 mai. 2012.
FIGUEIRA, Divalte. História: série novo ensino médio. São Paulo: Ática, 2002.
______. História: série novo ensino médio. 2ed. São Paulo: Ática, 2003.
______. História: série novo ensino médio. 3ed. São Paulo: Ática, 2010.
______. História em foco. São Paulo: Ática, 2011 (2 v.).
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: PUC-RJ/Contraponto, 2006.


[1] Por esse caminho, por exemplo, história do tempo presente não trataria do “imediato”, que deve ficar a cargo dos jornalistas, já que ao articular o tempo curto ao tempo longo essa operação historiográfica situa-se na duração - fugindo, dessa forma, do efêmero, do contingente.
[2] Infelizmente, a comparação do História em foco não pode ser feita, dado que somente examinamos uma edição, que é estruturalmente diferente da História: série novo ensino médio.