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quinta-feira, 8 de junho de 2000

Mais um número da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe

Detalhe do logotipo do IHGSE
Vem à público, e em boa hora, o trigésimo segundo número da Revista do IHGS. Circulando desde 1913, o mais antigo periódico do Estado rompe um jejum de oito anos (não foi o primeiro) que esperamos tenha sido o último. Felizmente, nesse período, contamos com o relançamento dos Cadernos de História (PDPH/UFS – 1995/97) e a instituição da Revista Tomo (NPPCS/UFS – 1998/99) que serviram como veículos para a produção historiográfica local.
A Revista do IHGS tem características próprias aos institutos históricos e está voltada para a divulgação das atividades cotidianas da instituição. Nos últimos anos, com a aproximação entre historiadores autodidatas e de formação universitária, a Revista tem se transformado, além de veículo “acadêmico”, numa instância reguladora do ofício do historiador profissional. Esse fato pode ser constatado pelo corpo de colaboradores (e também sócios) dos últimos números e desse, em particular. Coincidentemente ou não, os temas e preocupações desse novo grupo não destoam das prioridades eleitas pelos fundadores do instituto e 
vertidas para a Revista nas décadas de 1910 e 1920: a busca de fontes para  a história de Sergipe, a produção de biografias, e de monografias sobre municípios sergipanos.
A preocupação com as fontes está no texto de Beatriz Góis Dantas sobre a “História indígena do Nordeste”.  A sua intenção é apresentar um panorama de como o Nordeste está representado no Guia de fontes para a História do Nordeste e do Indigenismo em arquivos brasileiros (1994). As dimensões do acervo, tipos de suporte e as instituições mantenedoras são listadas e comparadas pela autora que também denuncia o descompasso entre o acervo organizado e a sua utilização (produção de trabalhos).
O trabalho de transcrição de manuscritos é efetivado por Lourival Santana e Luiz Mott. O primeiro reproduz o “Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Vila Nova Real de El Rei do rio São Francisco”, documento pertencente ao Arquivo Ultramarino de Lisboa. Esse “Compromisso”, solicitado por sergipanos em 1800 e confirmado pelo príncipe Dom João em 1806, expressa as regras de funcionamento da entidade e constitui importante informação sobre o catolicismo popular no período colonial. O segundo documento, divulgado por Luiz Mott, é uma denúncia ao Santo Ofício dos rigorosos castigos aplicados pelo Mestre de campo Garcia Dávila Pereira Aragão (1753-?) aos seus escravos. Diante do realismo das descrições não há o que comentar. É ler sobre as atrocidades e indignar-se.
Os textos biográficos mantiveram seu espaço tanto no corpo textual quanto nas “páginas de saudade”. Pedrinho dos Santos traça um perfil da literatura produzida por José Maria Moreira Guimarães, sócio do IHGS nos primeiros anos da instituição, um dos únicos a tematizar sobre a ciência histórica na Revista.  Das “Páginas de saudade” sabe-se da existência de pelo menos três obras, para mim inéditas: os trabalhos biográficos de Rosa Faria sobre Dom José Thomaz Gomes da Silva (1947) e Monsenhor Carlos Costa (1948) e a monografia que trata da história da transferência da capital e de Joaquim Inácio Barbosa, produzida pelo Padre Aurélio Vasconcelos. Bem próximo a esse tipo de produto está o “Depoimento sobre o poeta Passos Cabral” de autoria de José Amado Nascimento. É um tanto confuso quanto à disposição e aos objetivos do trabalho. A contextualização de Aracaju em 1933 pouco contribui para a compreensão do momento em que os dois se encontraram (Passos Cabral e José Amado Nascimento) e do improviso que resultou nos versos produzidos pelo poeta.
A historiografia sobre municípios também é contemplada na Revista. Há uma síntese produzida por Maria Thétis Nunes, sobre a trajetória da cidade de São Cristóvão (1590 e 1860) com ênfase na fundação, transferência, passagem dos holandeses e a sua importância como centro administrativo (civil, judiciário e eclesiástico) de Sergipe. Infelizmente, o período posterior à mudança da capital é ainda capítulo inédito na historiografia sergipana. O surgimento do povoado, freguesia e vila de Indiaroba são ligados por Luiz Fernando Ribeiro Soutelo às questões de limites meridionais de Sergipe com a Bahia. O trabalho de José Calazans trata da origem e desenvolvimento da cidade-palco do conhecidíssimo fenômeno de Canudos, mas também fornece indícios da experiência de sergipanos que para lá migraram no final do século XIX. Pistas que, apesar do badalado Centenário da Guerra (1997), foram quase ignoradas pelos que se propuseram a estudar a participação sergipana no episódio.
A experiência de sergipanos é também objeto destacado nos textos de Ricardo Teles de Araújo que traça o perfil (nascimento, naturalidade, profissão, etc.) de 488 moradores de Sergipe dos séculos XVI e XVII. Por outro lado, Arivaldo Fontes voltou-se para os “Sergipanos no magistério carioca”. Sobre o trabalho faço uma importante ressalva: não foi bem a escassez de terras que provocou a migração dos sergipanos para regiões da Bahia, Amazônia e Sudeste mas, entre vários motivos, a mentalidade conservadora das elites locais, a péssima distribuição dos recursos, e má utilização das terras existentes desde o final do século XIX. No entanto, essa observação não desmerece a relevância do trabalho como subsídio para a história social e intelectual do Estado. O autor relaciona perto de 50 sergipanos (nomes, obras e cargos) que atuaram no magistério no Rio de Janeiro entre os finais dos séculos XIX e XX.
Junto a esses últimos textos, devo citar os que podem ser considerados trabalhos de alargamento das fronteiras (se não metodológicas, pelo menos temáticas) da historiografia local. No grupo, além do já citado texto de Beatriz Góis Dantas, devem ser incluídos os textos de Maria da Glória Santana, Lindvaldo Sousa e Francisco José Alves. Maria da Glória convida os novos pesquisadores a produzirem uma nova interpretação sobre a relação igreja católica-desfavorecidos (índios e escravos). É uma nova análise sob o ponto de vista da não-elite “do poder, da fortuna e da cultura” que deve ser empreendida. Em “A manutenção da ordem e as relações de poder”, Lindvaldo Souza demonstra a ineficiência do poder Judiciário e da Polícia para controlar as ações de banditismo e a violência que atingia a população das fronteiras e do agreste de Itabaiana entre 1889 e 1930. Por fim, em “O missionário, o bandeirante e o sesmeiro”, o professor Francisco Alves informa sobre os roteiros e interesses dos primeiros exploradores do baixo São Francisco. O artigo amplia uma fronteira temática que promete muitos resultados para os próximos anos, posto que vai ao encontro dos projetos do Grupo de Estudos de História do Nordeste, do Centro de Documentação e Pesquisa sobre o baixo São Francisco e dos estudos sobre a pré-história, centralizados no Museu Arqueológico de Xingó.
Vê-se então, pela variedade de temas, problemas e perspectivas apresentadas nesse número,  que a Revista do IHGS ocupa relevante papel para a divulgação e refinamento das práticas historiadoras em Sergipe. E essa interação entre “acadêmicos” e “universitários” deveria ser aprofundada ainda mais em projetos de pesquisa promovidos pelo próprio Instituto. Fica ainda a importante constatação de que, apesar de todas as modificações impostas pela indústria da informação e da ineficiência das elites dirigentes desse Estado, o IHGS mantém firme o compromisso de valorizar “os traços característicos de nossa formação histórico-cultural... e reafirmar a diversidade regional diante dos desafios do processo de globalização”. A “identidade” é ainda o grande “problema” do historiador.

Para citar este texto:
FREITAS, Itamar. Mais um número da Revista do IHGS. Jornal da Cidade, Aracaju, 08 jun. 2000.                                                                                                

quarta-feira, 1 de março de 2000

A "Casa de Sergipe" (0): historiografia e identidade na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (1913/1929)

Capa da Revista do IHGS n. 40
Este trabalho aborda a história da historiografia sergipana produzida no período 1912/1929 veiculada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Descreve o movimento intelectual do Estado entre 1900 e 1930 enfocando os homens, as atividades, os equipamentos e as formas de organização. Também analisa a idéia de ciência em vigor, a estrutura administrativa, as práticas acadêmicas, a função social do Instituto e a sua tarefa como organizador de memória e produtor de identidades sobre o ofício do historiador, sobre a própria instituição e o Estado de Sergipe.

Introdução
A história da historiografia é um dos instrumentos mais eficazes da reflexão do historiador sobre o seu saber. Ela descreve, problematiza e reorienta as práticas, a função, enfim, o produto da ciência histórica. Mas essa atividade (historiar o trabalho produzido pelos homens do ofício) não se efetiva a partir de, e sobre, uma utopia[1]. A história da historiografia, tanto em relação a sua prática quanto ao seu objeto, leva em conta os “lugares” (sociais, econômicos, culturais) e “práticas” profissionais específicos e limitados segundo os parâmetros de quem a executa. Por isso, um dos mais legítimos e relevantes recortes diz respeito ao exame das representações que envolvem o religioso ato do Regere fines,[2] ou seja, a demarcação de fronteiras espaciais e socioculturais entre os homens; o estudo da historiografia sobre “regiões” que recria e enforma a experiência das pessoas circunscritas em um país, Estado ou cidade. Essa é, portanto, a orientação contida neste trabalho. Ele atua sobre a historiografia sergipana, produzida nos limites de uma instituição (Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe - 1912/1929) onde, pela primeira vez, de forma coletiva no Estado, os intelectuais tentaram esboçar algumas regras do “fazer” histórico e, partindo dessas, reivindicaram um território e inventaram uma memória, tentando disciplinar o presente daqueles que habitavam a região chamada Sergipe nas duas primeiras décadas desse século.
A historiografia produzida pelo IHGS está registrada no seu principal veículo de divulgação: a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. O periódico foi instituído em 27/08/1912 com a finalidade de publicar as atas, os nomes dos sócios, discursos e "trabalhos litterarios” da entidade fundada em Aracaju, Capital de Sergipe (1912). A Revista do IHGS é, portanto, o mais antigo meio de circulação (em atividade) da produção historiográfica local e, em certas décadas, o único. Sua trajetória conheceu três fases bem demarcadas pela dinâmica de sua circulação: 1913/1929; 1939/1966; 1978/1999. Os hiatos e fases não só indicam suspensão da publicação mas também a reestruturação administrativa do IHGS e, sobretudo, o desaparecimento de toda uma geração de intelectuais. Nesse trabalho, contemplarei a fase de implantação do veículo (1913/1929), a mais produtiva (14 números, 105 artigos, 49 autores), a fase em que a instituição apropriou-se de forma direta do aparato conceitual de alguns fundadores da chamada "geração 70", tais como Silvio Romero e Tobias Barreto. Foi também nesse período que a Revista delineou deliberadamente em "substratos científicos" as singularidades do Estado de Sergipe, os pressupostos de uma "sergipanidade". A convergência de três noções emblemáticas acerca do ambiente urbano (moderno, progresso e ciência)[3] na década de 1870 no discurso dos herdeiros da Escola do Recife também legitimam o marco temporal inicial (1912). A instalação dos novos equipamentos urbanos na capital, a preocupação com o saneamento é um indicador importante dessa convergência. O ano de 1929 como marco final é justificado nem tanto pelas transformações tradicionalmente conhecidas (Revolução de 1930), mas pelo envelhecimento e/ou morte dos discípulos da Escola do Recife; a criação de novos centros aglutinadores de intelectuais como a Academia Sergipana de Letras (1929); e, também, pelas dificuldades internas do Instituto que fizeram interromper a circulação da Revista por 10 anos (1929/1939).
Esse ensaio de história da historiografia, tendo o IHGS como objeto, tem a clara função de descrever e caracterizar a historiografia local identificando seus traços dominantes. Tem o objetivo de perceber, a partir das práticas anunciadas pela Revista, as tentativas de instituição de uma escrita da história e uma identidade para o historiador e o Estado de Sergipe. Além disso, deve, inclusive, comparar a experiência do IHGS com as práticas de sua matriz inspiradora e analisar as apropriações do ideário cientificista difundido pelos discípulos sergipanos da Escola do Recife. Com essa dissertação, em síntese, pretendo compreender a experiência do IHGS como lugar de memória e produtor privilegiado de historiografia. Para tanto, elaboro um esboço do que foi o "movimento intelectual" nas décadas de 1910 e 1920 tratando da auto-representação dos "intelectuais", seu trabalho, seus equipamentos e formas de organização (capítulo II). A seguir exploro a experiência do Instituto através do modelo instituído, dos projetos esboçados para a instituição, da idéia de ciência em vigor, sua estrutura administrativa, práticas acadêmicas e função social (capítulo III). Por fim, analiso a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe enfatizando aspectos de sua produção e circulação, tratando dos autores, textos e temáticas e das principais marcas impressas na escrita da história em Sergipe: as contribuições, heurística, geográfica e historigráfica (capítulo IV). É importante destacar aqui dois subprodutos da pesquisa anexados ao final desse trabalho: o Catálogo da Revista e o Inventário das questões tematizadas durante as sessões do IHGS no período analisado (1912/1929). O primeiro é constituído de índices (analítico e de autores), resumos e referências completas de todos os artigos publicados entre os números 1 e 14. O segundo relaciona todas as atividades exercidas durante as reuniões do grêmio. Ambos podem servir de importantes subsídios a uma nova versão sobre as práticas do IHGS e a escrita da Revista. E, mais importante, podem auxiliar na elaboração de trabalhos comparativos entre instituições do gênero em outros lugares do Brasil (Anexos 3 e 4). Antes de conhecer a experiência dos intelectuais, do Instituto e do periódico, passo em revista a prática da história da historiografia através do seus clássicos estudos de síntese. Também examino, sucintamente, as formas com que o IHGS tem sido abordado e apresento as diretrizes teórico-metodológicas utilizadas durante a análise (capítulo I).
Para citar este texto:
FREITAS, Itamar. A "Casa de Sergipe": historiografia e identidade na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (1913/1929). Rio de Janeiro, 2000. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Rio de Janeiro.http://itamarfo.blogspot.com/2010/10/casa-de-sergipe-historiografia-e.html
Notas
[1] No sentido de “em lugar algum”.
[2] Bourdieu, Pierre. A identidade e a representação: elementos para uma reflexão crítica sobre a idéia de região. In: O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1984. p. 113-114.
[3] Ver a respeito dessa convergência: Scwarcz, Lilia Mouritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e a questão racial no Brasil 1870-1930.São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 30-35.http://itamarfo.blogspot.com/2010/10/casa-de-sergipe-historiografia-e_9144.html