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sábado, 2 de abril de 2011

O que deve “saber” e “saber fazer” o profissional de História?

Detalhe da capa de Fundamentos para o ensino de História.Desenho de Eduardo Oliveira e cores de Thiago Neumann (2010). 

Quais são os conhecimentos e as habilidades que o futuro profissional de História deve possuir para bem exercer o seu ofício? O que deve o licenciado em História “saber” e “saber fazer” para ser considerado minimamente capacitado à docência nos domínios de Clio? Esta questão, apesar de trivial, é muito relevante. Ela ajuda a criticar e a redefinir os currículos dos cursos de formação inicial e continuada nas áreas de História e Pedagogia e também as formas de avaliação interna e externa desses cursos.
A reflexão sobre os saberes básicos requeridos aos profissionais de História tem desdobramentos também na formatação de novos currículos para os ensinos fundamental e médio e, consequentemente, sobre toda a constituição dos materiais didáticos, inclusive do mais importante deles no Brasil, o livro didático de História.
Margarida Oliveira

Se a questão é clara e relevante, as formas de respondê-la, como tantas outras na área da pesquisa educacional, entretanto, não são nada simples. Elas vão depender de uma série de sujeitos e condicionantes a exemplo das orientações ideológicas e epistemológicas dos documentos estatais orientadores da educação escolar pública e das tendências (ideológicas/epistemológicas) dominantes nas corporações de historiadores e de pedagogos.
Um exemplo desse tipo de conflito foi apresentado por Margarida Oliveira (2003) em sua tese doutoral. Ela narra o processo de elaboração das Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em História e aponta o desequilíbrio do documento (cf. Quadro n. 1) no que diz respeito às habilidades e conteúdos necessários à formação do profissional de História. 
As Diretrizes Curriculares Nacionais passam ao largo da formação do professor e, dos sete pontos que enumeram como competências e habilidades, apenas um se refere especificamente ao ensino de História e, nos outros se refere como se não fizessem parte do profissional em questão (Oliveira, 2003, p. 186).
 Quadro n. 1 - Competências, habilidades e conteúdos prescritos
pela Proposta de Projeto das Diretrizes Curriculares
para os Cursos de Graduação em História

Margareth Rago
Ciro Flamarion Cardoso
As questões suscitadas pelas DCN, no final da década de 1990, não se resumem ao “desequilíbrio” entre competências, habilidades e conteúdos. Margarida Oliveira informa que o Ministério da Educação modificou a proposta elaborada pela Associação Nacional de História (ANPUH), sob a coordenação dos professores Professores Ciro Flamarion Cardoso, Luíza Margareth Rago e Elizabeth Cancelli, dando origem a novos debates, envolvendo, agora, a corporação dos pedagogos (cf. Oliveira, 2003).[1]
Como afirmei, esse é um exemplo dos conflitos originados nas iniciativas de  regulação dos “saberes” e dos “fazeres” necessários à formação e atuação do profissional de História. No entanto, apesar das diferenças, há mediações e consensos dentro e entre esses centros de interesses.
Hoje, é muito difícil encontrar quem defenda explicitamente uma teoria da aprendizagem histórica fundada na disciplina formal ou no condicionamento operante. Mais raro ainda é nos depararmos com sujeitos que preguem uma epistemologia para a História centrada no providencialismo de Boussuet ou no positivismo de Comte.
Elizabeth Cancelli
Apesar da crescente ampliação do fosso que separa historiadores e pedagogos, repito, é possível flagrar consensos entre autores desses dois principais campos envolvidos com o ensino de História, seja em sua dimensão básica, seja na esfera do ensino superior. O que dizem os pesquisadores que refletem sobre a formação do profissional de História?
Imaginem agora representantes de países como, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Espanha, Portugal e Brasil, em torno da mesma mesa, discutindo um modelo (evidentemente ideal) de currículo para a formação dos professores de História. Quais seriam os conhecimentos e habilidades mais recorrentes?

Quem se posiciona sobre a questão?
Esse encontro, obviamente, nunca existiu e é muito difícil que consigamos reunir, no mesmo auditório, tantas sumidades para discutir um tema que não ocupa o centro das atenções de todos eles.
Evelyn Héry
Todavia, no plano da reescrita da História, é possível juntar os indícios, conselhos e até prescrições sobre os requisitos do “bom professor” de História flagrados nos textos de epistemólogos da História na Alemanha e na França como os de Jörn Rüsen (2007) e de Pierre Villar (1985), que refletiram sobre o tema, orientados pelo historicismo de Droysen e de Kosseleck, a filosofia hermenêutica de Riccoeur e a didática da História de Jeismann (no caso de Rüsen), e o materialismo histórico de Marx (no caso de Villar).

A mesma atitude percebemos em pesquisadores do ensino de História em Portugal, na Inglaterra, Espanha, Itália e França, a exemplo de Isabel Barca (2006), Peter Lee (2002, 2006), Geoff Timmins, Keth Vernon e Christine Kinealy (2005), José Armas Castro (2001), P. James Shaver (2001), Joaquín Prats (2006), Ivo Matozzi (1998), e Evelyn Héry (2000).
Jörn Rüsen
Tais autores fundamentam-se no historicismo de Rüsen e (Lee e, indiretamente, Barca), na vulgata historicista da Escola Metódica e da Escola Histórica alemãs e na vulgata desenvolvimentista que veicula habilidades/conhecimentos/valores relativos à vivência autônoma dos sujeitos, à comunicação, pensamento crítico, entre outros (Timmins, Vernon e Kinealy), na teoria crítica de Giroux, Stenhouse, Elliot e Schon (Castro), no funcionalismo de Dewey e no construtivismo de Piaget (Shaver), na educação histórica de Lee (Prats), na educação histórica, no historiciscmo de Kosellec e no marxismo de Hobsbawm (Matozzi), no historicismo da Escola dos Annales e nas psicologias do desenvolvimento e educacional de Piaget e Brunner (Héry).
No Brasil, as referências teóricas e as filiações aos campos da História e da Educação se repetem. Aqui, refletiram sobre a formação do professor de História, por exemplo, Ana Maria Monteiro (2007), fundamentada na teoria crítica de Tardif, Lessard, Lahaye, Freire e, sobretudo, Shulman –, Flávia Caimi (2008) – teoria crítica de Schön e Psicologia do desenvolvimento de Piaget –, Selva Guimarães Fonseca e Marcos Silva (2009) – teoria crítica de Giroux e Freire e historicismo da Escola dos Annales –, e, por fim, Ana Nemi, João Carlos Martins e Diego Luiz Escanhuela (2009), que buscaram legitimidade político-acadêmica no materialismo histórico (vários autores), e na Psicologia educacional sócio-interacionista de Vigotsky.

Onde os teóricos se encontram?
O rol de referências teóricas é diverso, a motivação para anunciá-las também. No entanto, teóricos se aproximam, sobretudo, porque tem que empregar palavras que comuniquem e “realizem” a natureza do professor ideal – e o conjunto de tais palavras é finito.
Ana Maria Monteiro
Teóricos, portanto, se aproximam na escolha dos processos cognitivos. Assim, “conhecer”, “reconhecer” e “aplicar”, em combinações várias, são as habilidades mais invocadas. Os pares “conhecer e aplicar” e “reconhecer e aplicar” representam dois terços das expectativas de aprendizagem. Residuais são os processos relacionados ao “compreender”, “criar”, “posicionar-se”, “problematizar”, “refletir” e “criticar”.

Conhecer/reconhecer e aplicar o quê? Métodos e técnicas, operações, capacidades e saberes relativos à disciplina, ao ensino de História, à aprendizagem histórica, à consciência histórica, à historiografia. Estes nove termos – “métodos/técnicas”, “operações”, “capacidades”, “saberes”, “ensino”, “aprendizagem”, “consciência” e “historiografia” – são indicadores da variedade de conhecimentos.
Flávia Caimi
A variedade de conhecimentos, à exemplo do que foi comentado sobre a variedade de habilidades, não esconde a convergência dos sentidos. Grosso modo, as concepções coletadas neste estudo sugerem, sem muita dificuldade, a construção de um "tipo ideal" fundado em conhecimentos das áreas da História, Pedagogia, Psicologia, Linguística e Geografia. Os temas das Ciências Sociais – mencionados nas atitudes de engajamento político-social – aparecem como conhecimentos/habilidades residuais.
Evidentemente, nem todos os teóricos compõem as suas expectativas de aprendizagem para o futuro profissional da História a partir de uma fundamentação/categorização quádrupla ou quíntupla. Mas a maioria inclui, de alguma forma, os conhecimentos e habilidades extraídas, ao menos, dos campos da História e da Pedagogia, lançando mão de alguns objetivos educacionais referentes às demais áreas aqui citadas.
Vejamos enfim o que se exige do futuro profissional em termos de habilidades e de conhecimentos e, consequentemente, os conteúdos ditos fundamentais para a formação inicial (e continuada) do professor de História.

Expectativas de aprendizagem para o professor de História
O conhecimento e as habilidades relativas às operações processuais da História e a compreensão sobre o conhecer historicamente ou sobre a natureza epistemológica da História dominam o rol de exigências (ou de expectativas). Os futuros professores são convidados a conhecer os sentidos de verdade e interpretação históricas, as relações história/passado, história/memória, e as ideias de historicidade e de duração.
Joaquin Prats
As operações processuais de identificar e compreender causas, motores da história, problematizar, selecionar, ler, criticar e extrair informações de fontes (inclusive das novas mídias), elaborar hipóteses, explicar e, ainda, o conhecimento/reconhecimento da literatura que trata desses tipo de procedimento, como também das funções sociais da História, produzida nos domínios da história da historiografia, das epistemologias/teorias e das metodologias da História são também considerados elementos fundamentais.
Por fim, os acontecimentos (ou conteúdos, fatos, conhecimento histórico – a sinonímia é rica!). Deles se exige o conhecimento, o reconhecimento de datações, cronologias e períodos.
Ivo Matozzi

O segundo grupo de pré-requisitos, que contabiliza aproximadamente 40% do total de expectativas[2], faz referência à área da educação, inclusas a Pedagogia e a Psicologia. Nesta rubrica contatamos a maior incidência das habilidades de criticar, refletir, problematizar, criar e aplicar, ainda que os pares conhecer-aplicar e reconhecer-aplicar permaneçam dominantes, como no tópico anterior.
Comecemos por esse diferenciador, então. Refletir, problematizar e criticar sobre o quê? Sobre as dificuldades dos alunos com a aprendizagem, raciocínio, formas de avaliação, seleção de conteúdos, sua progressão e questões diversas do “cotidiano escolar”.
Quando expressam as necessidades de conhecer, reconhecer e aplicar (as três habilidades em conjunto vêm grafadas como “dominar”), são comuns as referências às identidades dos alunos, conhecimentos prévios dos alunos, objetivos educacionais, objetivos do ensino de História, valor formativo da história escolar, conteúdos históricos e geográficos, modelos de ensino e aprendizagem, construção da noção de tempo na criança (operações de simultaneidade e de sucessão), materiais didáticos, princípios pedagógicos, princípios da Didática, planejamento escolar, práticas dialógicas, estratégias de controle de turma, relação teoria/prática e epistemologia de professor.
O último grupo de habilidades e de saberes faz referência à Geografia, Linguística e Psicologia. É o mais reduzido, não chegando a 10% do total. Da primeira, exige-se dos alunos o conhecimento e a aplicação das noções (e das formas de abordar tais noções com os alunos) de espaço, extensão e distância e dos organizadores espaciais. Da Linguística, projetam-se como fundamentais as habilidades de argumentar, narrar, expressar-se de forma escrita e oral, e interpretar, adquirir e aplicar “vocabulário histórico”, ou seja, conhecer e empregar operadores temporais. Da Psicologia, por fim, são citados os conhecimentos e habilidades relacionados às questões da aprendizagem (função do raciocínio, imaginação, empatia, natureza do pensamento e as ideias de aprendizagem) e do desenvolvimento em seus estágios mais avançados em termos de maturidade (autodisciplina, autodireção, independência de pensamento, convivência com os outros e consigo mesmo). 

Conclusões
O que se exige de um profissional de História no seu processo de formação acadêmica? Teóricos da História e do ensino de História, pesquisadores preocupados com a formação de professores de História divergem quanto às fontes, justificativas e conceitos empregados em suas argumentações. Uns se esmeram para firmar uma razão histórica. Outros empenham-se em justificar a História-ciência como instrumento de justiça social, ou, ainda, de apresentá-la como saber prioritário no desenvolvimento humano e, como tal, submetido aos princípios construtivistas.
Esses mesmos teóricos, radicados na Inglaterra, França, Espanha, Itália, Portugal e Brasil, se aproximam ao explicitarem as habilidades e os conhecimentos. Em termos de habilidade, predominam os processos cognitivos básicos – conhecer, reconhecer e aplicar – em detrimento das ações de criar e criticar.
Em termos de conhecimentos, são dominantes os conteúdos reconhecidos como típicos da ciência da História (50%), seguidos da matéria relacionada às áreas da Pedagogia (40%), Psicologia, Geografia e Linguística (10%). Da História, os teóricos apontam como fundamental o domínio de conteúdos conceituais e factuais da Historiografia, procedimentos da pesquisa histórica e conteúdos também conceituais e factuais da Teoria da História, história da Historiografia e Epistemologia histórica.
Dos pedagógicos, são esperados o domínio de conhecimentos conceituais e factuais e procedimentais relacionados, principalmente, aos campos da Didática e do Currículo. Os demais conhecimentos requisitados são tidos como responsáveis por desenvolver no professor a capacidade de se expressar e de situar-se espacialmente, de compreender os processos cognitivos e as singularidades do desenvolvimento do aluno.

O profissional de História em ação. Eduardo Oliveira e Thiago Neumann (2010). Representação dominante entre os alunos,
construída durante os 4 anos de licenciatura em História, na maioria dos cursos Brasileiros.
* * *

É claro que a elaboração dos currículos de formação inicial do professor de História é condicionada por interesses ideológicos e epistemológicos circulantes na esfera do Estado e também da sociedade civil – na voz das corporações, por exemplo, de historiadores e de pedagogos. Também é óbvio que esse quadro de habilidades e de conhecimentos não é novo, podendo mesmo até ser considerado a vulgata para a formação do professor. Mas não custa refletir sobre os indicadores apresentados neste balanço. Em que medida o currículo da sua instituição aproxima-se e distancia-se desse imaginário concerto de epistemólogos, pesquisadores do ensino de História e da formação de professor? Quais dos elementos aqui apontados foram incorporados, quais são excluídos? Mais importante, ainda: quais os elementos que podem ser agregados à grade curricular da sua instituição para que ela possa, realisticamente, cumprir os objetivos anunciados no projeto pedagógico do seu curso? Os elementos descritos no perfil do profissional da História são coerentes com o conjunto de disciplinas/matérias cursadas ao longo dos quatro ou cinco anos de formação inicial? Pense um pouco... e tome uma posição.

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. O que deve “saber” e “saber fazer” o profissional de História? Disponível em: <http://itamarfo.blogspot.com/2011/04/o-que-deve-saber-e-saber-fazer-o.html>.


Fontes das imagens
Detalhe da capa de Fundamentos... Desenho de Eduardo Oliveira e cores de Thiago Neumann. FREITAS, Itamar. Fundamentos para o ensino de História (Anos Iniciais). São Cristóvão: Editora da UFS, 2010.
Margarida Oliveira. Disponível em: <www.sigaa.ufrn.br>. Capturado em:  2 abr 2010.
Ciro Flamarion Cardoso. Disponível em: <josefranciscoartigos.blogspot>. Capturado em: 2 abr. 2010.
Margareth Rago. Disponível em: <www.unicamp.br>. Capturado em: 2 abr. 2011.
Elizabeth Cancelli. Disponível em: <www.sescsp.org.br>. Capturado em: 2 abr. 2010.
Evelyn Héry. Disponível em: <www.cafepedagogique.net>. Capturado em: 2 abr. 2011.
Jörn Rüsen. Disponível em: <www.joern-ruesen.de>. Capturado em: 2 abr. 2011.
Ana Maria Monteiro. Disponível em: <www.imagem.ufrj.br>. Capturado em: 2 abr. 2011.
Flávia Caimi. Foto de Itamar Freitas (2010).
Joaquin Prats. Disponível em: <aprenderhaciendozona007.blogspot>. Capturado em: 2 abr. 2011.
Ivo Matozzi. Disponível em: <www.123people.it>. Capturado em: 2 abr. 2011.
O profissional de História em ação. Eduardo Oliveira e Thiago Neumann (2010). FREITAS, Itamar. Fundamentos para o ensino de História (Anos Iniciais). São Cristóvão: Editora da UFS, 2010. p. 57.


Referências
BARCA, Isabel. Literacia e consciência histórica. Educar, Curitiba, Especial, p. 93-112, 2006.
CAIME, Flávia Eloisa. Aprendendo a ser professor de história. Passo Fundo: Editora da UPF, 2008.
CASTRO, José Armas. Didactica da historia e formación de professores. In: FACAL, Ramón López et al. La formación docente en el profesorado de historia. Rosario: Homo Sapiens, 2001. pp. 31-39.
HÉRY, Evelyne. Les grandes orientations de La pédagogie de l’histoire de 1880 à nos jours. In: L’épreuve orale sur dossier em histore: préparation au CAPES d’histoire-géographie. sn: Presses Universitaires de Rennes, 2000.
MONTEIRO, Ana Maria Ferreira da Costa. Professores de História: entre saberes e práticas. Rio de Janeiro, Editora Mauad, 2007.
NEMI, Ana; MARTINS, João Carlos; ESCANHUELA, Diego Luiz. Ensino de História e experiências: o tempo vivido. São Paulo: FTD, 2009.
OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de. O direito ao passado: uma discussão necessária ao profissional de História. Recife, 2003. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Pernambuco.
PRATZ, Joaquín. Ensinar História no contexto das Ciências Sociais: princípios básicos. Educar, Curitiba, número especial, p. 191-218, 2006.
RÜSEN, Jörn. História viva: Teoria da História III - formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2001.
SHAVER, P. James. La epistemologia y la educacion de los docents de las ciencias sociales. Disertación preparada como discurso de apertura para la Conferencia Internacional sobre la Fomación de los Docentes y los Métodos de Enseñanza con Conceptos Específicos, Universidad de Santiago de Compostela, España, 6 julio de 1992. In: FACAL, Ramón López et al. La formación docente en el profesorado de historia. Rosario: Homo Sapiens, 2001. pp. 41-59.
SILVA, Marcos; FONSECA, Selva Guimarães. Ensinar História no século XXI: em busca do tempo perdido. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2009.
TIMMINS, Geoff; VERNON, Keith; KINEALY, Christine. The historian’s skills and qualities of mind. In: Teaching and learning History. London: Sage, 2005. pp. 96-131.
VILAR, Pierre. Iniciação ao vocabulário da análise histórica. Lisboa: Sá da Costa, 1985. [Primeira edição em castelhano – 1980].

Notas
[1] Na proposta de Diretrizes Curriculares Nacionais enviada pelo MEC, datada de 03 de abril de 2001,  há duas diferenças fundamentais em relação ao documento anterior: 1) retirada dessa segunda parte da definição do perfil do profissional (negritado na citação) e a divisão do item Competências e Habilidades em gerais e específicas para licenciatura, além de indicar que “o curso de licenciatura deve ser orientado também pelas Diretrizes para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica em cursos de nível superior”. (Diretrizes do MEC) (Oliveira, 2003, p. 301n).
[2] Trabalhei com 107 expectativas de aprendizagem no total. A distribuição varia entre 2 e 8 enunciados para cada autor. 

terça-feira, 19 de agosto de 2003

A licenciatura em História faz cinqüenta anos

A primeira turma do curso de Geografia e História foi constituída em 1951, a partir da autorização provisória concedida pela inspeção federal à Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. Fundada um ano antes, e mantida pela Sociedade Sergipana de Cultura, a FCFS também abrigava em seu primeiro lustro os cursos de Filosofia, Matemática e Línguas neo-latinas e anglo-germânicas (cf. Santos, 1998).  O início não foi fácil.  Como ocorrera em outras localidades, as matrículas na Faculdade de Filosofia estiveram aquém do seu limite de vagas – trinta alunos. O curso de Geografia e História é um exemplo desse obstáculo inicial: o total de matriculados variou entre 12, 13, 12 e 17 estudantes por ano. O referido curso representou, respectivamente, 20%, 26%, 17%, e 23% do total de alunos da Faculdade no período 1952/1955 (cf. Freitas, 1993).
Do quadro docente (1952/1955), há registros de, pelo menos, dezessete professores atuantes na Faculdade de Filosofia. O perfil era multifacetado. Três tipos dominaram a cena: o filósofo/teólogo, os bacharéis em ciências jurídicas e sociais e os engenheiros. Os médicos contavam apenas três, havendo também um odonto-clínico. Isso demonstra quão distante encontravam-se os cursos superiores das práticas de especialização nas Letras, na História e na Geografia. Apenas Maria Thétis Nunes, Clarice Xavier de Oliveira e Maria da Conceição Barreto Ouro fugiam à silhueta do lente do final século XIX e das décadas iniciais do século XX. As duas primeiras professoras eram diplomadas em Geografia e História e a última em Letras neo-latinas.
Mas, não se pense que o reduzido número de especialistas em Geografia e História significou um entrave intransponível à formação dos alunos. De início, é forçoso lembrar a abrangência dos estudos superiores desinteressados antes da década de 1930 e a simplicidade da estrutura curricular do curso de Geografia e História (tomando o ensino superior atual como termo de comparação). O nosso Geografia e História não estava muito distante do primeiro esboço criado em São Paulo em 1934. Tal padrão, contudo, já era bastante criticado por José Honório Rodrigues com base no ensino norte-americano, posto que não incluía disciplinas “de método”, traço diferencial para a formação historiadora. Mas... precisávamos de historiadores?
O curso sergipano, provavelmente modelado pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, era ministrado em três anos (dois períodos por ano), mediante nove disciplinas: Geografia Física (1º e 2º ano), Geografia Humana (1º e 2º) e Geografia do Brasil (3º ano); História da Civilização (1º, 2º e 3º), História do Brasil (2º e 3º), História da América (3º). Além dessas disciplinas, ofertava-se Teologia para todos os cursos da Faculdade como matéria optativa. Na grade de Geografia e História ela ocupava o 1º e o 2º ano do curso.
Já se vão quase cinqüenta anos de formação das duas primeiras turmas, entre as quais incluíram-se Elisete Batista Nogueira, Gildete Santos Lisboa, Josefina Sampaio Leite, Maria Clara V. de Faro Passos, Magnória de Nazareth Magno, Izabel Amaral Barreto, Maria de Lourdes Araújo Fontes e Adelci Figueiredo Santos. Foram vencidas, portanto, as cinco décadas que separam o tempo breve, o tempo dos acontecimentos, o “piscar dos pirilampos” de Ferdinand Braudel, que distingue a conjuntura histórica do tempo intermediário. Os fatos já estão assentados, segundo os metódicos, e já é tempo de historiar a experiência dos professores Lucilo da Costa Pinto (Antropologia), Gonçalo Rollemberg Leite (História da Civilização), Joaquim Fraga Lima (Geografia Humana), Petru Stefan (Geografia Física) e Maria Thétis Nunes (História do Brasil), mestres que cumpriram os pontos diários do curso de Geografia e História no ano de 1952.
Se não for possível fazer história da vivência dessas pessoas e sobre as práticas da Faculdade de Filosofia, que se registre ao menos, o depoimento dos instituidores do oficio de Clio em nível superior nas terras de Sergipe no ano do seu cinqüentenário. Oportuna a efeméride e mais oportuna ainda é a nova conjuntura que se nos avizinha: não bastasse o curso de História da UFS ter enriquecido a bibliografia sergipana em mais de duas centenas de trabalhos nos anos noventa (além de ter aberto um curso noturno), nesse momento, a comunidade acadêmica observa meio estupefata a ampliação 80 para 240 o número de vagas nos cursos de licenciatura em História, quando acrescida a oferta da Universidade Tiradentes no segundo semestres de 2003 (160 vagas). É um bom começo de século, tanto para a formação do historiador como para a oficio de professor de História. E então? O cinqüentenário das primeiras turmas vale ou não uma monografia? A sugestão está registrada.

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. A licenciatura em História faz cinquenta anos. Jornal da Cidade, Aracaju, 19 ago. 2003.

Este artigo foi publicado no livro Historiografia sergipana.
Para ver sumário desta obra, acesse: < http://itamarfo.blogspot.com/2010/11/historiografia-sergipana.html >.

domingo, 10 de junho de 2001

Indicadores da nova historiografia sergipana

A história da historiografia sergipana é uma área recente do saber acadêmico que trata, principalmente, das obras, autores, instituições e concepções teórico-metodológicas relativas à escrita da história local. Ela tem periodizado a trajetória do discurso histórico a partir de elementos indicadores de ruptura nas formas de escrita como o surgimento da primeira obra de um cronista sergipano sobre a província (Apontamentos históricos e Topográficos... de J. Travassos – 1860), a primeira História de Sergipe em bases científicas (F. Freire – 1891), a primeira instituição especificamente voltada para os estudos histórico-geográficos (o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, 1912) e, por fim, a metodologia histórica introduzida pelo Curso de História da UFS (início da década de 1970). Se for consenso entre os historiadores que a virada do milênio pode servir também como marco delimitador de uma nova etapa, por certo, a adoção da disciplina “Prática de Pesquisa” como requisito obrigatório para obtenção do grau de licenciado em História, deverá ser considerada um divisor de águas na história da historiografia local.
Os motivos não são poucos. Primeiro, o fato de que a obrigatoriedade de uma pesquisa orientada para todo graduando contribui para mudar o (não tão) antigo perfil do professor: um adestrado reprodutor da pesquisa de ponta junto aos ensinos fundamental e médio. Para romper essa dicotomia – teoria/conteúdo – o Colegiado do curso e o Conselho Departamental promoveram reformas curriculares com o intuito de formar o “professor-pesquisador”, sinônimo de profissional crítico. Depois, tem o duplo ganho historiográfico e social. Com os trabalhos de conclusão de curso a experiência sergipana está ficando menos desconhecida e a bibliografia pátria mais rica e plural. Já foi por demais constatado que os feitos da terra pouco aparecem nas sínteses sobre história do Brasil e no livro didático a situação é bem pior. Logo, se os próprios sergipanos não transformarem a sua experiência passada em objeto de investigação, certamente não serão os alagoanos ou mesmo os baianos ou japoneses que sobre ela se debruçarão. Mas os estudantes de história responderam bem à renovação curricular de 1993 e, juntamente com os professores, vêm refinando o processo ano a ano. O resultado desse empenho são as dezenas de trabalhos produzidos, tematizando, como afirmavam Ranke e os pais dos Annales, todo o tipo de experiência humana.
Para se ter uma idéia do impacto dos novos trabalhos, em termos quantitativos, basta informar que na década de 1980 até a metade dos anos noventa, excetuando-se os poucos trabalhos de pós-graduação dos professores do DHI e dos membros do IHGS, a pesquisa não chegou a interessar uma dezena de recém-formados em história. Com a introdução da “monografia”, esse número já se aproxima de uma centena e a média pode chegar à trinta por ano a partir de 2001. Além da quantidade expressiva de trabalhos há outro fato a destacar: hoje, o prazer de “ser historiador” começa a deixar de pertencer somente aos professores da Universidade. Estimulados pelas disciplinas teórico-metodológicas, pelos estágios e programas de iniciação científica, alguns alunos já se aventuram em publicar um artigo em jornal de circulação diária ou palestrar em determinados eventos sem temer o aval dos velhos mestres. Mas que tipo de escrita produzem esses novos historiadores?
A historiografia dos noviços é modesta quanto aos recortes temporais. Por serem produzidas entre 6 e 12 meses, circunscrevem espaços cronológicos relativos a uma ou duas décadas apenas. Extrapolam esses limites alguns poucos trabalhos que, devido às peculiaridades do objeto (um inventário de jornais, a vida de uma instituição como a Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão, a busca de relatos de viajantes sobre Sergipe), abrangem um ou mais séculos. Dos períodos enfocados (segundo a segmentação varnhagenena) há expressiva escassez de estudos sobre a colônia (3%),  campo do qual não havia especialista nos anos 1990 no DHI. O período imperial chegou a interessar a treze alunos enquanto que a contemporaneidade republicana atraíu setenta e sete por cento do total. Metade desses últimos explorou temas situados entre as décadas de 1960 e 2000.
Quanto ao recorte espacial, apenas vinte por cento assumiram todo o estado de Sergipe e em termos de município, Aracaju é a grande estrela com quarenta por cento dos trabalhos. Não obstante, outros municípios terem sido enfocados – São Cristóvão (5 monografias), Estância (3), Laranjeiras (2), Lagarto, Campo do Brito, Divina Pastora, Indiaroba, Itabaiana, Itaporanga, Siriri, Malhador, Porto da Folha, Propriá e Santa Luzia (um trabalho cada) – os alunos de história continuam a dever maior atenção às localidades situadas nas regiões Agreste e Sertão.
Em relação ao objeto enfocado, os “eventos” perdem de longe para o trabalho sobre instituições artístico-culturais e os movimentos organizados (políticos e sociais em luta pela terra e contra o autoritarismo). Em quantidade intermediária ficam os trabalhos que tematizam grupos (estudantes e religiosos, por exemplo). O caráter de “história problema”, sugerido pelos recortes dos objetos, fica muito mais nítido quando as monografias são examinadas sob o ângulo das esferas do conhecimento. A economia (2%), com a experiência cooperativista da Colônia Treze e a crise econômica sobre o município de Santa Luzia no século XIX, perde fôlego em relação à política (15%)  – questões partidárias e organização do movimento estudantil. Os trabalhos sobre o social (26%) tem tratado da experiência dos trabalhadores (organização, exploração), de alguns aspectos do escravismo (imagens, delitos, destino pós-abolição), do problema da terra (conflitos, assentamentos) e do cangaço. São questões pouco recorrentes dessa esfera, mas não menos relevantes, os indígenas, políticas públicas de saúde, preocupações higiênicas e prostituição feminina.
Apesar do grande número de estudos sobre o social, o predomínio da pesquisa recai mesmo sobre a cultura e/ou cultural. Desse segmento mereceram atenção as instituições e equipamentos intelectuais (Universidade Federal de Sergipe, Arquivo Público Estadual, Museus do Homem Sergipano e Afro, bibliotecas Clodomir Silva e Pública Epifânio Dória, centros culturais como o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e a Casa de Cultura Afro-Sergipana); a produção historiográfica dos historiadores Sebrão Sobrinho, Maria Thetis Nunes, José Silvério Leite Fontes e José Calazans; a historiografia dos viajantes sobre Sergipe; festas populares dedicadas ao Divino Espírito Santo, São José, São João, Santos Reis, Carnaval e comemorativas ao centenário de Aracaju; produção artística e consumo relativos ao teatro, cinema, pintura e arquitetura. A religiosidade dos católicos, protestantes e umbandistas; políticas públicas voltadas para a educação e, até mesmo, o simbolismo dos registros gráficos nos sítios pré-históricos da região de Xingó são também alvo do interesse dos novos historiadores na esfera da cultura.
Tal variedade (sem falar na pluralidade teórico-metodológica) vem demonstrar o empenho dos docentes da UFS no desvelamento da vivência local. As monografias não representam somente um avanço quantitativo. Não são simples trabalhos acadêmicos condenados às estantes. Tratam-se, em muitos casos, de embriões de teses de pós-graduação ou mesmo da abertura de novas linhas de pesquisa sobre história de Sergipe.
Os próximos meses podem revelar algumas mudanças nas monografias tanto em termos de temática quanto de metodologia. A chegada dos professores doutores Jorge Carvalho e Fábio Maza e o redirecionamento dos professores Francisco José Alves para o período colonial e Terezinha Oliva para a seara das políticas públicas no período republicano (cultura e educação), além da saída de mestres para o doutorado em 2001, apontam para a consolidação do “terceiro nível” em Sergipe. A produção simultânea das monografias de alunos do Projeto de Qualificação Docente é também outro fator, a curto prazo, com possibilidades de modificar esse perfil. Dentro de pouco mais de um ano teremos aproximadamente cento e cinqüenta trabalhos sobre a experiência de boa parte dos municípios sergipanos que, além de contarem sobre o passado dessas comunidades (algumas delas completamente virgens para os historiadores), poderão trazer novos problemas e hipóteses estimulando a escrita de uma nova síntese sobre Sergipe. Sendo assim, temos mais é que desejar vida longa tanto para os novos historiadores, como para a “monografia” final do curso de história.

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. Indicadores da nova historiografia. Jornal da Cidade, Aracaju, p. 6-6, 10 jun. 2001.


Este artigo foi publicado no livro Historiografia sergipana.
Para ver sumário desta obra, acesse: < http://itamarfo.blogspot.com/2010/11/historiografia-sergipana.html >.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2001

Por uma História da Universidade Federal de Sergipe

Entrada frontal da Reitoria da UFS.
Fonte: www.ufs.br
A experiência da Universidade Federal de Sergipe, como instituição, ainda não foi historiada. Essa é a constatação rotineira de todos os que se debruçam sobre um determinado aspecto das suas atividades de forma um pouco mais sistemática. A inexistência de um trabalho de síntese tem sido reclamação de pesquisadores em geral, de alguns cidadãos usuários dos seus serviços, mas também da maioria dos administradores da própria UFS. Justificativas sobre essa lacuna historiográfica não faltam, e os mesmos "reclamantes" acabam concordando entre si que a elaboração de uma obra dessa natureza enfrentaria problemas de ordem metodológica, financeira, ideológica etc. Fala-se em dispersão de fontes, nas dificuldades em estudar uma empresa com atores e interesses tão diferenciados, com ações incrustadas em vários setores da sociedade. Estabelecendo também a minha hipótese, eu diria que a produção de uma narrativa sintética sobre a UFS, além das motivações expostas, esbarra, sim, na permanente discussão de questões sobre as quais não há consenso sequer estratégico/temporário, tais como: o que é uma Universidade? Para que serve uma Universidade? Qual a Universidade que queremos? Que tipo de Universidade tem sido construída ao longo desses trinta e dois anos? Sendo assim, vamos fazendo muita história no dia-a-dia (protestando com greve, subindo no ranking do "provão", dizendo impropérios na formatura, inaugurando laboratórios, invadindo o prédio da Reitoria, descobrindo o valor terapêutico de ervas vulgares, ganhando prêmios internacionais etc.) e relegando, quase sempre, a historiografia sobre a instituição a um plano inferior (quando muito, a alguns folhetos produzidos de cinco em cinco anos).
Certamente, alguns "reclamantes" administradores têm dado a sua contribuição. Os Relatórios de Gestão e os textos sobre Planejamento Institucional não chegam a se constituírem documentos historiográficos, mas registram (ou reconstituem) os "feitos" oficiais de até uma década. Grupos de pesquisadores têm inventariado narrativas (Núcleo de Pesquisa Sociedade e Educação), professores aposentados têm produzido artigos (Beatriz Góis Dantas, Maria Thetis Nunes) e algumas monografias abordam as escolas fundadoras da Universidade como as de Serviço Social e Filosofia. Mas o trabalho sintético sobre a instituição ainda é um desafio para todos.
Um raro exemplo daquilo a que me refiro está na dissertação de Luiz Eduardo Oliva O processo de gestação de uma universidade do Nordeste: o caso Sergipe (UFSC, 1990). Esse trabalho procura, entre outros fins, "apontar as razões do surgimento tardio do ensino superior em Sergipe" e, para tanto, analisa os condicionantes econômicos, sociais e políticos que permitiram a concretização da empreitada, desde meados da década de 1920. Sob as lentes de Gramsci e Althusser, Oliva chegaria, certamente, a resultados metodologicamente previsíveis: a introdução do ensino superior em Sergipe dependeu do quadro econômico da época, e, portanto, está ligado aos interesses da classe dominante (reprodução das relações sociais de produção). Por essa visão, o autor tanto explica a fundação dos cursos superiores nas décadas de 1940 e 1950 (recuperação da indústria açucareira - Química; planificação do desenvolvimento - Economia; modernização do Estado - Direito; educação do operariado - Faculdade de Filosofia; "apaziguamento dos desafortunados" - Medicina e Serviço Social) quanto a instalação da Universidade Federal de Sergipe, motivada, principalmente pela política desenvolvimentista em nível local (exploração do petróleo e outros recursos naturais). Uma das contribuições desse trabalho está justamente na interpretação empreendida sobre a fundação da UFS e na tentativa de esboçar uma síntese sobre a experiência universitária sergipana.
Recentemente, durante a comemoração dos trinta anos da UFS, a comissão responsável pelo evento achou por bem historiar a experiência da instituição, senão em todos os ramos da sua atividade, pelo menos em relação ao ensino de graduação. O resultado do trabalho, organizado pelas professoras Maria Stella Tavares Rollemberg e Lenalda Andrade Santos (sob o apoio institucional da COAVI/COGEPLAN) foi lançado em 30/08/2000 no auditório da Reitoria, com a ausência, infelizmente, de oitenta por cento dos quarenta e três professores e mais de vinte estagiários que escreveram a obra UFS: História dos cursos de graduação. Ao todo, vinte e seis artigos constituem o trabalho que enfoca a trajetória dos cursos existentes até 1998 com suas respectivas modalidades e habilitações. Uma produção simples do CEAV/CIMPE, porém, muito bem cuidada. O texto inclui fotografias em p&b que retratam as faculdades fundadoras, os Centros acadêmicos e oferecem vista aérea da Cidade Universitária.
É uma iniciativa que nasce vitoriosa, pois, além de reunir pesquisadores que já se debruçavam sobre a história dos cursos (como Serviço Social e Enfermagem), cobrou dos mais antigos (Letras, Direito) o registro de suas trajetórias e estimulou os mais recentes (Engenharia Agronômica) a preservarem os eventos significativos de suas experiências. O livro traça o perfil de como está a UFS em termos de ensino de Graduação na entrada do novo milênio e, "de quebra", aponta e recolhe depoimentos importantes, já que alguns elementos da geração fundadora estão presentes, felizmente, para nos contar a história.
Mas, não esperem do livro um "maná" para todas as lacunas da história dos cursos na UFS. Deve-se ler o trabalho de forma compreensiva em relação às suas características, e a principal delas é a descompensação decorrente, é óbvio, da própria natureza coletiva e interdisciplinar da obra. A pluralidade a que me refiro está presente numa série de componentes, como: na formação acadêmica da autoria, constituída por físicos, cientistas sociais, biólogos etc.; na definição do objeto de trabalho, o curso, muitas vezes confundido com o departamento que lhe dá suporte; e nas formas de composição e estilo, variantes entre o sintético, o digressivo, o analítico, entre o matemático, o comedido e o “literário”. A diversidade também é expressa nos elementos selecionados como substanciais para cada texto. Nesse ponto as escolhas privilegiaram tanto o esforço dos professores pioneiros quanto a evolução da grade curricular, a formação do quadro docente, a inserção do curso na sociedade, os quadros e gráficos relativos a vagas, matrículas, diplomação, evasão, concorrência no vestibular etc.
Como não poderia deixar de ser, a idéia de produção historiográfica também mostra-se plural. As diferenças de concepção podem ser notadas na escolha dos atores da história; quem mais teria influenciado na trajetória de cada curso: professores, técnicos administrativos ou alunos? Os marcos temporais também flutuam. São elásticos o bastante para incluírem a década de 1920 ou o século XIX. Em outros casos, restringem-se à década de 1970 saltando, imediatamente, para o ano 1998. As fontes variam com o grau de acessibilidade e organização e até mesmo com a competência de cada autor em “dissecá-las”. Nos textos, predomina o depoimento oral em detrimento da documentação arquivística e bibliográfica. Em relação aos “motores da história”, a maioria é indiferente. Mas, há casos em que essa questão ganha um certo relevo, levando o leitor a se perguntar: o que determina a criação de um curso superior: a política do regime militar, a ideologia da igreja católica ou o voluntarismo de alguns professores ilustrados?
Talvez essa pluralidade responda também pela ausência da marca das organizadoras em alguns capítulos (questões como criação de curso, proposta original, evolução, corpos docente e discente, avaliação e inserção do curso na sociedade através do ensino, pesquisa e extensão). Mas essa diversidade é a mesma que já começa a sugerir um tipo ideal para uma próxima história de curso. É também através dela que se pode chegar a conhecer outros aspectos da UFS não estabelecidos no projeto original da obra, como a origem dos cursos de pós-graduação, a criação de alguns órgãos - o Hospital Universitário, o Biotério, o Museu de Antropologia - e o conhecimento de projetos vencidos, como a idéia de instalar o curso de Odontologia na cidade de Estância, a idéia de construir o HU na Cidade Universitária etc. Por esses tantos motivos, a História dos cursos de Graduação já é obra de referência sobre a história da UFS.
Os textos citados até aqui representam a tentativa de tornar inteligível a experiência de um verdadeiro "polvo" que não parou de crescer (felizmente) e mudar de cor nos últimos trinta e dois anos. Os problemas e métodos inerentes ao "como fazer" essa historiografia não foram e não serão resolvidos com a publicação de mais uma obra. Cada iniciativa desse tipo é bem vinda e só contribui para o refinamento dessa empresa que seria a síntese sobre a história da UFS. Para os "práticos" e céticos é importante a ressalva de que esse projeto não é irrelevante, já que a história vem sendo evocada na maioria dos discursos, em cada momento de decisão, ruptura ou aceleração dos destinos da instituição. A história da UFS vem sendo deglutida por força da autoridade ou da eloqüência dos evocadores, embora a sua narrativa nem sempre obedeça um certo tratamento científico.
Para contribuir com o debate, tendo por base os recentes acontecimentos -conflitos de identidade entre os professores e alunos do Campus, o Programa de Qualificação Docente, a defesa do processo democrático durante as eleições para Reitor, por exemplo -, sou levado a melhor compreender o processo histórico e, em seguida, reordenar posições teóricas em relação à questão. Para além das determinações de ordem estrutural (explicitadas por Luiz Eduardo Oliva) e dos condicionantes impostos pela conjuntura (presentes em alguns capítulos da obra coletiva), uma possível narrativa sobre a história da UFS deverá levar em conta o caráter historicista que vigorou na França no último quartel do século XIX e considerar com atenção os pequenos fatos, as pequenas causas e as determinações de ordem micropolítica (política no sentido weberiano). Talvez a historiografia da UFS possa ser pensada (e aqui não vai nenhuma consideração de ordem moral) mais em termos de pequenos ciúmes, secretos desejos, conflitos conjugais, rusgas de corredor e pequenas vinganças pessoais que em nível de determinações emanadas dos gabinetes de FHC, do FMI e do Banco Mundial. Mas essa é apenas uma possibilidade entre tantas outras oferecidas pelo ofício do historiador e pelo interesse de mais um "reclamante". 

Para citar este texto

FREITAS, Itamar. Por uma história da UFS. Informe UFS, São Cristóvão, p. 4-5, 22 fev. 2001.

Por uma história da UFS

A experiência da Universidade Federal de Sergipe, como instituição, ainda não foi historiada. Essa é a constatação rotineira de todos os que se debruçam sobre um determinado aspecto das suas atividades de forma um pouco mais sistemática. A inexistência de um trabalho de síntese tem sido reclamação de pesquisadores em geral, de alguns cidadãos usuários dos seus serviços, mas também da maioria dos administradores da própria UFS. Justificativas sobre essa lacuna historiográfica não faltam e os mesmos "reclamantes" acabam concordando entre si que a elaboração de uma obra dessa natureza enfrentaria problemas de ordem metodológica, financeira, ideológica etc. Fala-se em dispersão de fontes, nas dificuldades em estudar uma empresa com atores e interesses tão diferenciados, com ações incrustadas em vários setores da sociedade. Estabelecendo também a minha hipótese, eu diria que a produção de uma narrativa sintética sobre a UFS, além das motivações expostas, esbarra, sim, na permanente discussão de questões sobre as quais não há consenso sequer estratégico/temporário tais como: o que é uma Universidade? Para que serve uma Universidade? Qual a Universidade que queremos? Que tipo de Universidade tem sido construída ao longo desses trinta e dois anos? Sendo assim, vamos fazendo muita história no dia a dia (protestando com greve, subindo no ranking do "provão", dizendo impropérios na formatura, inaugurando laboratórios, invadindo o prédio da Reitoria, descobrindo o valor terapêutico de ervas vulgares, ganhando prêmios internacionais etc.) e relegando, quase sempre, a historiografia sobre a instituição a um plano inferior (quando muito, a alguns folhetos produzidos de cinco em cinco anos).
Certamente, alguns "reclamantes" administradores têm dado a sua contribuição. Os Relatórios de Gestão e os textos sobre Planejamento Institucional não chegam a se constituírem documentos historiográficos mas registram (ou reconstituem) os "feitos" oficiais de até uma década. Grupos de pesquisadores têm inventariado narrativas (Núcleo de Pesquisa Sociedade e Educação), professores aposentados têm produzido artigos (Beatriz Góis Dantas, Maria Thetis Nunes) e algumas monografias têm abordado as escolas fundadoras da Universidade como as de Serviço Social e Filosofia. Mas o trabalho sintético sobre a instituição ainda é um desafio para todos.
Um raro exemplo daquilo a que me refiro está na dissertação de Luiz Eduardo Oliva O processo de gestação de uma universidade do Nordeste: o caso Sergipe (UFSC, 1990). Esse trabalho procura, entre outros fins, "apontar as razões do surgimento tardio do ensino superior em Sergipe" e, para tanto, analisa os condicionantes econômicos, sociais e políticos que permitiram a concretização da empreitada, desde meados da década de 1920. Sob as lentes de Gramsci e Althusser, Oliva chegaria, certamente, a resultados metodologicamente previsíveis: a introdução do ensino superior em Sergipe dependeu do quadro econômico da época, e, portanto, está ligado aos interesses da classe dominante (reprodução das relações sociais de produção). Por essa visão, o autor tanto explica a fundação dos cursos superiores nas décadas de 1940 e 1950 (recuperação da indústria açucareira - Química; planificação do desenvolvimento - Economia; modernização do Estado - Direito; educação do operariado - Faculdade de Filosofia; "apaziguamento dos desafortunados" - Medicina e Serviço Social) quanto a instalação da Universidade Federal de Sergipe, motivada, principalmente pela política desenvolvimentista em nível local (exploração do petróleo e outros recursos naturais). Uma das contribuições desse trabalho está justamente na interpretação empreendida sobre a fundação da UFS e na tentativa de esboçar uma síntese sobre a experiência universitária sergipana.
Recentemente, durante a comemoração dos trinta anos da UFS, a comissão responsável pelo evento achou por bem historiar a experiência da instituição, senão em todos os ramos da sua atividade, pelo menos em relação ao ensino de graduação. O resultado do trabalho, organizado pelas professoras Maria Stella Tavares Rollemberg e Lenalda Andrade Santos (sob o apoio institucional da COAVI/COGEPLAN) foi lançado em 30/08/2000 no auditório da Reitoria, com a ausência, infelizmente, de oitenta por cento dos quarenta e três professores e mais de vinte estagiários que escreveram a obra UFS: História dos cursos de graduação. Ao todo, vinte e seis artigos constituem o trabalho que enfoca a trajetória dos cursos existentes até 1998 com suas respectivas modalidades e habilitações. Uma produção simples do CEAV/CIMPE, porém, muito bem cuidada. O texto inclui fotografias em p&b que retratam as faculdades fundadoras, os Centros acadêmicos e oferecem vista aérea da Cidade Universitária.
É uma iniciativa que nasce vitoriosa pois, além de reunir pesquisadores que já se debruçavam sobre a história dos cursos (como Serviço Social e Enfermagem), cobrou dos mais antigos (Letras, Direito) o registro de suas trajetórias e estimulou os mais recentes (Engenharia Agronômica) a preservarem os eventos significativos de suas experiências. O livro traça o perfil de como está a UFS em termos de ensino de Graduação na entrada do novo milênio e, "de quebra", aponta e recolhe depoimentos importantes, já que alguns elementos da geração fundadora estão presentes, felizmente, para nos contar a história.
Mas não esperem do livro um "maná" para todas as lacunas da história dos cursos na UFS. Deve-se ler o trabalho de forma compreensiva em relação às suas características e a principal delas é a descompensação decorrente, é óbvio, da própria natureza coletiva e interdisciplinar da obra. A pluralidade a que me refiro está presente numa série de componentes como: na formação acadêmica da autoria, constituída por físicos, cientistas sociais, biólogos etc.; na definição do objeto de trabalho, o curso, muitas vezes confundido com o departamento que lhe dá suporte; e nas formas de composição e estilo, variantes entre o sintético, o digressivo, o analítico, entre o matemático, o comedido e o “literário”. A diversidade também é expressa nos elementos selecionados como substanciais para cada texto. Nesse ponto as escolhas privilegiaram tanto o esforço dos professores pioneiros quanto a evolução da grade curricular, a formação do quadro docente, a inserção do curso na sociedade, os quadros e gráficos relativos a vagas, matrículas, diplomação, evasão, concorrência no vestibular etc.
Como não poderia deixar de ser, a idéia de produção historiográfica também mostra-se plural. As diferenças de concepção podem ser notadas na escolha dos atores da história; quem mais teria influenciado na trajetória de cada curso: professores, técnicos administrativos ou alunos? Os marcos temporais também flutuam. São elásticos o bastante para incluírem a década de 1920 ou o século XIX. Em outros casos, restringem-se à década de 1970 saltando, imediatamente, para o ano 1998. As fontes variam com o grau de acessibilidade e organização e até mesmo com a competência de cada autor em “dissecá-las”. Nos textos, predomina o depoimento oral em detrimento da documentação arquivística e bibliográfica. Em relação aos “motores da história”, a maioria é indiferente. Mas há casos em que essa questão ganha um certo relevo, levando o leitor a se perguntar: o que determina a criação de um curso superior, a política do regime militar, a ideologia da igreja católica ou o voluntarismo de alguns professores ilustrados?
Talvez essa pluralidade responda também pela ausência da marca das organizadoras em alguns capítulos (questões como criação de curso, proposta original, evolução, corpos docente e discente,  avaliação e inserção do curso na sociedade através do ensino, pesquisa e extensão). Mas essa diversidade é a mesma que já começa a sugerir um tipo ideal para uma próxima história de curso. É também através dela que se pode chegar a conhecer outros aspectos da UFS não estabelecidos no projeto original da obra, como a origem dos cursos de pós-graduação, a criação de alguns órgãos como o Hospital Universitário, o Biotério, o Museu de Antropologia e o conhecimento de projetos vencidos como a idéia de instalar o curso de Odontologia na cidade de Estância, a idéia de construir o HU na Cidade Universitária etc. Por esses tantos motivos, a História dos cursos de Graduação já é obra de referência sobre a história da UFS.
Os textos citados até aqui representam a tentativa de tornar inteligível a experiência de um verdadeiro "polvo" que não parou de crescer (felizmente) e mudar de cor nos últimos trinta e dois anos. Os problemas e métodos inerentes ao "como fazer" essa historiografia não foram e não serão resolvidos com a publicação de mais uma obra. Cada iniciativa desse tipo é bem vinda e só contribui para o refinamento dessa empresa que seria a síntese sobre a história da UFS. Para os "práticos" e céticos é importante a ressalva de que esse projeto não é irrelevante, já que a história vem sendo evocada na maioria dos discursos, em cada momento de decisão, ruptura ou aceleração dos destinos da instituição. A história da UFS vem sendo deglutida por força da autoridade ou da eloqüência dos evocadores, embora a sua narrativa nem sempre obedeça um certo tratamento científico.
Para contribuir com o debate, tendo por base os recentes acontecimentos, como conflitos de identidade entre os professores e alunos do Campus, o Programa de Qualificação Docente, a defesa do processo democrático durante as eleições para Reitor, por exemplo, sou levado a melhor compreender o processo histórico e em seguida reordenar posições teóricas em relação à questão. Para além das determinações de ordem estrutural (explicitadas por Luiz Eduardo Oliva) e dos condicionantes impostos pela conjuntura (presentes em alguns capítulos da obra coletiva), uma possível narrativa sobre a história da UFS deverá levar em conta o caráter historicista que vigorou na França no último quartel do século XIX e considerar com atenção os pequenos fatos, as pequenas causas e as determinações de ordem micropolítica (política no sentido weberiano). Talvez a historiografia da UFS possa ser pensada (e aqui não vai nenhuma consideração de ordem moral) mais em termos de pequenos ciúmes, secretos desejos, conflitos conjugais, rusgas de corredor e pequenas vinganças pessoais que em nível de determinações emanadas dos gabinetes de FHC, do FMI e do Banco Mundial. Mas essa é apenas uma possibilidade entre tantas outras oferecidas pelo ofício do historiador e pelo interesse de mais um "reclamante".

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. Por uma história da UFS. Informe UFS, São Cristóvão, p. 4-5, 22 fev. 2001.

quarta-feira, 1 de dezembro de 1999

Um modelo para a história da historiografia brasileira: a contribuição de José Honório Rodrigues (1949/1988)

José Honório Rodrigues 
(1013/1987)
Por volta de 1976, quando a profissionalização do historiador ainda principiava em grandes centros universitários, alguns profissionais da área já se preocupavam – e escreviam – sobre as condições de possibilidade de uma história da historiografia brasileira.[1] Nilo Odália e Raquel Gleser foram alguns dos profissionais que reclamaram por uma reflexão epistemológica acerca do saber em questão. Ambos estavam também interessados em examinar as práticas do ofício e, no dizer de Raquel Gleser, importava tanto o “saber” – a teoria da História – quanto o “fazer” do historiador. Os autores paulistas concordavam, ainda, em relação à qualidade e aos obstáculos impostos a esse tipo de trabalho: o excessivo biografismo, a precariedade dos instrumentos de pesquisa, a inexistência de conceitos de modelos de análise historiográfica. Gleser e Odália também tinham a mesma opinião quanto às iniciativas sérias e promissoras do gênero: o trabalho, desenvolvido por José Honório Rodrigues, sedimentava-se, então, como a mais importante referência. (Cf. Odália, 1976; Gleser, 1976).
Passados mais de 20 anos, as questões por eles levantadas  continuam atuais. No momento em que a história da historiografia ganha foros de especialidade e até status de “laboratório” do saber histórico, percebe-se que a busca é muito mais por um programa que por modelos de análise simplesmente. Mas, como chegar aos limites dessa especialidade sem antes refletir sobre os modelos esboçados – direta ou indiretamente – por aqueles que se propunham narrar as formas com as quais o conhecimento histórico vinha sendo produzido no Brasil? Como avançar sem dialogar com os primeiros sistematizadores acerca da definição utilizada, o objeto privilegiado, os métodos os critérios de escolha, os objetivos e a função de uma história da historiografia?
Este artigo pretende examinar tais questões e construir as bases que ponham em diálogo a tradição e as novas aquisições e necessidades da história da historiografia. Não é trabalho de expurgo do “velho” para ressaltar a “novidade”. É uma tentativa de distanciamento daquilo que se transformou no verdadeiro estigma da disciplina: a idéia de se estar sempre começando do zero. Este texto examina parte dos escritos de José Honório Rodrigues, o primeiro e talvez o único – nas dimensões que tomou a sua obra – grande sistematizador de uma história da historiografia brasileira. A análise estará voltada para os títulos considerados como os mais representativos em relação à temática em foco. Começará com a parte teórico-metodológica, passando pelo “breviário” do seu pensamento – as teses que defende sobre a história do país –, encerrando com os trabalhos especificamente voltados para a história da historiografia, tanto na forma de ensaios reunidos, quanto em trabalhos orgânicos. Ao final deste artigo, pretendo obter uma “síntese ideal” da postura de José Honório em relação à definição e aos limites desse campo que, junto a outros trabalhos, contribuirá para a reflexão, em bases atualizadas, sobre o programa e as possibilidades de efetivação da história da historiografia no/do Brasil.
O primado do método
Descontados os diversos sentidos que o termo “profissionalização” do historiador venha a tomar em cada um dos conhecidos marcos estabelecidos pela história da historiografia (1934, 1937, 1961 etc.), parece clara a contribuição de José Honório nesse sentido. Foi grande a luta, empreendida em vários estados do Brasil, contra o autodidatismo, em favor da coletivização dos métodos e da pesquisa, pelo inventário e avaliação da escrita histórica, produzida desde o período colonial a meados da década de 1980. Municiando-se para esses combates, José Honório planejou o “tríptico” teoria, pesquisa e história da historiografia, visando à profissionalização do historiador brasileiro, a exemplo do que acontecera na Alemanha (primeira metade do século XIX), na França (segunda metade do XIX) e nos EUA (virada do século XIX para o século XX).
Teoria da história do Brasil (1949) é o nosso primeiro grande manual de “Introdução à história” e guarda estreitas ligações com os manuais fundadores de Bernheim na Alemanha e de Langlois e Seignobos na França. Teoria também é fruto de seus contatos com a metodologia dominante na historiografia universitária norte-americana, no período em que foi contemplado com uma bolsa de pesquisa da Fundação Rockefeller. Na Universidade Colúmbia (1943/1944), José Honório participou do curso “Nature, methods and types to history”, dirigido por Charles Cole, tendo como colaboradores, os professores Henrry Steele Commager, Jacques Barzum e Allan Nevins. O livro, que discute questões como o significado da palavra história, a cientificidade da disciplina, periodização, fontes, gêneros, ciências auxiliares e metodologia, resulta do entusiasmo despertado pelo curso e do seu desejo de “tentar reformar o ensino superior de história.” (Rodrigues, 1985, p. 16).
Nessa obra, o “método” – ou “metodologia”, José Honório oscila entre os dois termos – “é o conjunto de princípios que presidem o trabalho histórico em suas várias fases.” (Rodrigues, 1969, p. 222). Esses princípios são: 1. descobrir, colher as fontes; 2. criticar – crítica externa (data, local autor e autenticidade), restituir o texto ao original, e crítica interna ou de credibilidade; 3. interpretar; 4. narrar. O exercício destas tarefas prepara “a formação do historiador, tal como a gramática é indispensável ao conhecimento da língua.” (idem, p. 223). Com a difusão desse método, José Honório afirma sua pretensão de “libertar a história do diletantismo, do autoditatismo”, substituindo “o agir intuitivo, o agir empírico pelo agir reflexivo” (idem, p. 229, 223), conduzindo, assim, a disciplina ao status de ciência.
A “ciência” da história, segundo Rodrigues, mais que um instrumento para a função educativa, mais que objeto do prazer intelectual, é um tipo de conhecimento fundado na compreensão. O seu produto serve para minimizar o egocetrismo, alimentar a tolerância – diante da diversidade cultural – para o autoconhecimento humano e como orientador da ação no presente. “Assim como nos libertamos dos nossos problemas, estudando-os em suas origens e desenvolvimentos, assim também conhecendo a historiografia agimos e atuamos melhor.” (Rodrigues, 1949, p. 20).
Essa tarefa paradigmática de “compreender” o presente pode ser percebida por toda sua obra e, especificamente, em Conciliação e Reforma no Brasil: um desafio histórico político. (Rodrigues, 1965). Publicado em meio ao turbulento 1964, o livro representa uma das suas tentativas de buscar no passado as raízes dos males que afligem o país. Os males – demandas por terra, educação e saúde, nosso subdesenvolvimento econômico e o arcaicismo político social – estariam plantados na dissociação flagrante “entre o Governo e o Povo, entre o Poder e a sociedade.” (idem, p. 75). Na raiz deste aparthaid social, estaria o caráter ambivalente que singulariza o povo brasileiro: “a massa indígena e negra, mestiça e cabôcla foi essecialmente conservadora e ora conformada, ora inconciliável nas relações políticas e sociais.” A liderança [do Povo] caracterizou-se desde os tempos coloniais por uma atitude conciliadora, arcaica e personalista, evitando os excessos, as rebeliões. Assim, para Rodrigues, o passado brasileiro é uma alternância entre a “lentidão rotineira” e as interrupções caóticas; o processo histórico apresenta-se, pois, como incruento e, ao mesmo tempo, entrecortado por espetáculos bizarros, plenos de sangue, “ensopando” o chão do Brasil. Ocorre que essa tragicidade, segundo José Honório, não tem sido registrada pela “historiografia tradicional,” caracteristicamente “triunfante e oficial”. Frente a essa situação, faz-se necessário “revelar os aspectos menos óbvios da situação presente, oculto aos olhos descuidados.” (idem, p. 11).[2] A escrita do historiador não deve “falar em nome da Tradição mas da Verdade.” Deve ser viva, combatente, libertadora de consciência, integradora do país na relação passado-presente-futuro (Rodrigues, 1984, p. 38-39). Em síntese, esta [nova] história deve cessar de “engrandecer as elites e empequenecer o povo. Pois, é com ele, [o Povo], com suas virtudes e seus erros, que temos de contar para fabricar o destino brasileiro.” (idem, p. 13).
Depois de sumariamente indicados o método, a concepção e a função estratégica da escrita da história, não seria inoportuno perguntar ao autor que sentido teria uma história dessa historiografia em suas obras estritamente teórico-metodológicas. A Pesquisa Histórica no Brasil, além de ser um complemento à metodologia exposta em Teoria da história do Brasil, é, também, um bom exemplo de como seria o terceiro trabalho da tríade teoria, pesquisa e historiografia. No segmento intitulado “A evolução da pesquisa pública histórica brasileira,” José Honório examina a produção dos Institutos Históricos, dos historiadores ligados a instituições governamentais e de iniciativas individuais. Mas, a ênfase nesse livro recai sobre a pesquisa – entendida como a descoberta e o emprego correto da documentação e o desvelamento dos fatos. Não há, portanto, uma discussão aprofundada acerca da história da historiografia. Sobre este ponto, permanece a caracterização esboçada nos “Diversos gêneros da história,” onde José Honório assegura um lugar para a história da história – no “tipo História cultural, intelectual e das idéias” – juntamente com a história da literatura, arte, ciência, música, imprensa e opinião pública e das idéias econômicas sociais e políticas. Na terceira edição da Teoria (1969), os “tipos” de história transformam-se em “gêneros”, e a história da história permanece classificada como uma “espécie” da “História cultural, intelectual e das idéias”. Todavia, nessa mesma edição, há uma defesa explícita da autonomia da disciplina “historiografia” nos cursos universitários. “A historiografia, a história do escrito histórico, a história da história, a história do pensamento histórico, das principais tendências dos historiadores é uma disciplina universitária adotada em toda parte. Pôr em contacto os jovens estudantes com seus predecessores, revelar as direções principais, é uma forma prática de ensinar a história, tanto quanto possível, ensinar a escrever a história.” (Rodrigues, 1969, p. 455).
Produzindo a história da historiografia brasileira
O projeto de redigir uma história da história do Brasil era bastante amplo, estando programada a inclusão de seis volumes em sete tomos. Na “Introdução” de “A Historiografia conservadora” (1988), José Honório anunciava o conjunto de trabalhos que formaria esse projeto: Oliveira Viana, Historiografia Liberal, Católica, Republicana e Positivista, do Realismo ao Socialismo e, ainda, a Historiografia estrangeira sobre o país. Infelizmente, os problemas de saúde levaram-no a interromper o trabalho, sendo encerrado esse projeto com o volume 2, tomo 2.
Apesar do esforço em constituir trabalhos sistemáticos de “história da História” ou “historiografia”,[3] a contribuição de Rodrigues deve ser buscada muitos anos antes, no período da publicação da Historiografia e bibliografia do domínio holandês no Brasil (Rodrigues, 1949) e de uma série de coletâneas inauguradas com Notícia de vária história (1951).
Na “explicação” da obra sobre o domínio holandês no Brasil, ao caracterizar o empreendimento, Rodrigues sugere o que deveriam ser [ou em que efetivamente se transformariam] os seus trabalhos futuros em matéria de “historiografia”: uma “tentativa sistemática de classificação bibliográfico-crítica de um certo acontecimento da história do Brasil.” (Rodrigues, 1949, p. XII). O autor também sugere que esse “inventário”, uma “humilde tarefa”, talvez não fosse, a sua época, um trabalho de grande notoriedade para os historiadores.
Seguindo o enunciado pelo título, José Honório divide o livro em “historiografia” e “bibliografia”. Na “bibliografia” são  agrupados,  indutivamente,  em relação ao evento – o domínio holandês no Brasil –, livros, folhetos, histórias gerais e regionais e coleções de tratados. São obras, segundo o autor, “puramente históricas” ao lado de trabalhos que discutem “a questão mais teórica que histórica” – hipóteses sobre origem do capitalismo, por exemplo – e de obras de história literária – literatura stricto sensu influenciada por fatos históricos –, de história natural e médica, etnografia e artes.
O sentido que toma o termo “historiografia” é, na parte do livro que a ele se refere, um conjunto de obras que trata de determinado tema ou fase “histórica”. Este termo dá origem a construções do tipo: literatura histórica, historiografia sobre os holandeses no Brasil, historiografia portuguesa, historiografia da guerra dos 80, entre outros. Nesse “conjunto de obras”, estão incluídos os mesmos elementos selecionados para a “bibliografia”, alvo dos comentários de José Honório. São exposições críticas menos sistemáticas que as elaboradas na segunda parte – “bibliografia” –, orientadas pelo seguinte protocolo: temática ou período histórico e, dentro deste, a relação de autores e obras; ponto de vista do autor examinado – a favor dos católicos e lusitanos, anti-holandês; indicação de virtudes e vícios –, leitura recomendada, obra que já deveria ser esquecida...; estilo – seco e fiel, correto e agradável, oratório...; dados biográficos sobre o autor; uso da obra e comentários de outros historiadores; localização da obra e indicação de outras edições e de bibliografias que as referenciaram. Neste mesmo segmento do livro – “historiografia” –, aponta-se a principal contribuição proporcionada pelos trabalhos dessa natureza. Para Rodrigues, importaria “assinalar aquêles [livros] de maior valor, [e] indicar os que têm sido injustamente considerados como valiosos, sem que nada lhes justifique o renome.” (Rodrigues, 1949, p. 6). Tomada como uma atividade, a historiografia seria uma espécie de depuração da escrita sobre um tema: uma tarefa que tem atraído, tanto o interesse de estudiosos sérios, quanto a cobiça de antiquários e “a opinião de muito intelectual desocupado de assunto.” (idem, p. 3).
Antes de examinar os trabalhos, intitulados como “história da historiografia”, é preciso verificar como o autor enfoca o tema nas diversas coletâneas que publicou ao longo da carreira. Esses “ensaios historiográficos” são numerosos. Resultam de conferências, comunicações, introduções, prefácios e artigos jornalísticos produzidos entre 1951 e 1986. Em notável artigo sobre a importância de José Honório para a historiografia brasileira, Francisco Iglésias aponta pelo menos 12 títulos que reúnem esse tipo de trabalho. (cf. Iglésias, 1988, p. 55-78).
Nessas coletâneas, classificadas por Iglésias como “ensaios historiográficos”, nem sempre é possível colher uma posição regular de José Honório acerca do objeto privilegiado de uma história da historiografia. Tomados os cinco títulos mais significativos, percebi que o autor, na maioria dos casos, refere-se à atividade como um estudo sobre as “maiores figuras,” as “mais representativas da historiografia brasileira.” (cf. Rodrigues – prefácios de 1965 e 1970). São esses estudos críticos – iniciados freqüentemente por indicações biobibliográficas – que examinam a posição político-ideológica dos autores, a metodologia empregada, o estilo, a riqueza da interpretação. Em História e historiadores, por exemplo, José Honório sugere que tais ensaios são uma espécie de preparação para a História da historiografia Brasileira, “um plano largo e sistemático de levantamento bibliográfico e de interpretação crítica que ainda exigirá alguns anos para sua completa execução.” (cf. Rodrigues, 1965, p. 7).  Mas, nessas coletâneas, há trabalhos que diferem um pouco da tipologia autor-obra e, apesar de contribuírem para a “evolução da disciplina”, não são classificados pelo autor como “ensaio historiográfico.” Estão fora dessa rubrica, por exemplo, alguns artigos sobre “os estudos brasileiros e os brasilianistas”, classificados como “ensaios histórico-políticos”; estudos sobre as tendências e interpretações da historiografia brasileira; e as reflexões acerca do ofício do historiador no Brasil – metodologia, interdisciplinaridade, etc. (cf. Rodrigues, 1982, p. 54-83; 1966, p. 48-100; 1985). De qualquer forma, nessas coletâneas de ensaios sobre temas diversos, continuavam firmes e coerentes a defesa das “teses” sobre a história do Brasil, a necessidade de profissionalização do historiador brasileiro – difusão do método – e a proposta de uma escrita ligada às questões do presente – ao presente do “Povo” brasileiro.
Depois de vários desses ensaios, em 1978, o projeto sistemático de uma história da história do Brasil foi efetivado. O “prefácio” do volume 1, Historiografia Colonial (Rodrigues, 1979, p. XV-XX), é um dos poucos espaços onde José Honório teoriza sobre essa atividade. A “história da história” é vista como a “análise crítica da evolução do pensamento e da forma da escrita histórica”. Diz ainda que o “estudo da historiografia representa (...) a libertação da disciplina em relação à “história literária” (história da literatura) e aos seus exames baseados em critérios estilísticos e estéticos. “A obra histórica deve ser vista e examinada como obra histórica, pelo seu valor intrínseco, como contribuição ao desenvolvimento de sua disciplina.” (idem, p. XV). Nesse mesmo texto, Rodrigues anuncia os grandes precursores da “história da história”: Capistrano de Abreu (1878, 1882), Alcides Bezerra (1927) e Sérgio Buarque de Holanda (1951). (idem p. XV-XVI).
Como critério básico para a seleção dos objetos nessa obra, José Honório distinguiu o documento histórico – “formado no momento exato do acontecimento” – do historiográfico – “concebido em várias épocas sucessivas ou contemporâneas”. Mas, como aplicar tal critério “quando nos defrontamos com uma historiografia tão rudimentar e pobre (...) como dos séculos XVI e XVII”? (idem p. XVII). A solução é flexibilizar os critérios e aceitar, no exame da historiografia colonial, tanto “os escritos acabados na forma da descrição ou da interpretação (...) relatem ou não fatos do passado ou se limitem ao seu presente” (idem, p. XVII) – documentos que tenham o título de Crônica, Relação, Descrição Memorial, Narração –, quanto as biografias de historiadores e os instrumentos de trabalho histórico do tipo bibliografia, genealogia ou compêndio biográfico.
A segmentação da “Historiografia Colonial”, diferentemente da que foi adotada na Historiografía del Brasil (1957/1963), publicada no México –, não é diacrônica. José Honório optou por agrupar os autores e textos por temas: “Historiografia dos invasores”, “Historiografia do Maranhão”, “Historiografia Econômica e Social”, entre outras. A análise, em alguns casos, parece seguir os rudimentos da crítica histórica, mas o caminho adotado por Rodrigues inclui a biografia e a bibliografia do autor; descrição do livro; comentários sobre o método, o estilo, concepção de história, julgamento e precauções sobre o uso da obra; indicação das edições e opinião dos demais historiadores.
Nessa obra, os “estudos historiográficos” são vistos como relevantes para o desenvolvimento da “história”, como área distinta do conhecimento e como contribuição à formação intelectual engajada.
A narrativa histórica, seja a crônica conjuntural, seja a história estrutural, é um produto final do empreendimento histórico de cada geração e, por isso, serve também para esclarecer as opiniões das minorias intelectuais e para compreender os trabalhos e sacrifícios da gente brasileira. (idem p. XIX).
Em A historiografia conservadora (Rodrigues, 1988), o termo historiografia continua a significar um conjunto de obras sobre um período ou tema ou, simplesmente, a escrita histórica. José Honório deixa subentendido que uma “história da história” efetiva-se por intermédio de produtos, como o “ensaio historiográfico” e a “crítica historiográfica” (idem p. 172-173) e tem por objeto os homens, as concepções político-ideológicas e a materialização destas em obras relevantes para a interpretação do passado brasileiro. O livro é estruturado em três partes – historiografia conservadora; monarquista; reacionária e contra-revolucionária – iniciadas com justificativas acerca da classificação adotada para a inclusão dos respectivos autores. Assim, dando a entender que a função principal da “história da história” é julgar o valor das obras e dos autores para a interpretação do passado do Brasil, José Honório começa a análise pelo exame da biografia do historiador, as concepções político-ideológicas e seus reflexos na escrita da história. Descreve e avalia como o autor explorou determinadas temáticas – o povo, os vencidos, o nacionalismo – e o quanto direcionou a abordagem para o social e o econômico. Avalia também as teses, a consistência da argumentação, o trabalho em relação ao que se produzia no período do lançamento e a repercussão da obra no ápice da carreira, no ato e depois da morte de seu autor.
O tomo 2 da História da história do Brasil (1988) é inteiramente dedicado à produção de Oliveira Viana. Tanta atenção assim a um só autor tem suas razões. Além da repercussão como grande pensador entre as décadas de 1920 e 1950, Francisco José Oliveira Viana é considerado por José Honório como o “responsável intelectual pelo movimento estado-novista de 1937 e pela contra-revolução de 1964.” (Rodrigues, 1988, p. 3). Por isso mesmo, os parâmetros da crítica, a contra-argumentação e o “julgamento” dos trabalhos de Viana são baseados nas “teses” de José Honório sobre a “história do Brasil”, comentadas anteriormente.
A exposição obra a obra, às vezes capítulo a capítulo, segue a ordem cronológica dos lançamentos. É aberta por breves comentários sobre a formação intelectual, a personalidade de Oliveira Viana, oferecendo uma visão sobre o conjunto da sua produção. Nesse tópico, Rodrigues justifica o emprego da expressão “ultra-conservador”, aponta as virtudes interpretativas, os equívocos metodológicos e critica o quadro teórico utilizado por Viana. Em todo o livro, não há economia de qualificativos. O autor é caracterizado como racista-arianista, alienado, apologista da ditadura, do militarismo e das elites. Para o analista, Oliveira Viana “não pesquisa”. Sua obra é compilada, e as “suas citações não obedecem às normas usuais entre os melhores estudiosos” (Rodrigues, 1988, p. 17) – e isso, quando Viana faz referência às fontes, o que são casos raros. Rodrigues reclama ainda que Oliveira Viana especula demais e comprova de menos; faz uso do “se”; trabalha com “leis” durante a interpretação – “que não existem no campo da história nem das ciências sociais” (idem, p. 33); e baseia-se em cientistas de segunda ordem como Le Play, seu “pai espiritual”. Todos estes equívocos teórico-metodológicos levam José Honório a destituí-lo do status de historiador, considerando-o, depreciativamente, um “sociólogo” ou um “pseudo cientista social”.
Conclusão
Se a “ciência histórica” está fundada na interpretação, se cada geração produz a sua própria história e se essa escrita “deve responder às perguntas concretas que o processo histórico levanta” (Rodrigues, 1965, p. 22), a história da historiografia, responsável por estudar o desenvolvimento da escrita histórica – configurada nas obras do “gênero história” –, sendo parte da ciência histórica, também deve obedecer aos mesmos objetivos e seguir as mesmas estratégias anunciadas acima. Se José Honório não o colocou explicitamente, pelo menos foi o que pude perceber em sua prática e foi desta forma que cheguei ao que chamo de um “modelo ideal” composto por: definição, objeto, método e função da história da historiografia.
Apesar dos vários e nem sempre coerentes empregos que faz dos termos “história” – obras de história/todo o passado humano/ciência histórica – e “historiografia” – inventário, conjunto de obras de história/estudo sobre as obras de história –, as expressões “história da história” e “historiografia” e seus equivalentes menos freqüentes – história do escrito histórico, história do pensamento histórico, história das principais tendências dos historiadores – são responsáveis por nomear uma disciplina universitária de caráter autônomo, circunscrita/filiada à “História cultural, intelectual e das idéias”, que se ocupa da crítica do trabalho produzido pelos historiadores e da “ciência histórica” em geral.
O objeto é a escrita histórica configurada em texto impresso, em seus diferentes “gêneros” – história geral, local, da ciência, literária, política, da arte, biografia –, formatos editoriais – livro, folheto –, estilos – oratório, seco –, níveis de pesquisa – descritivo, analítico, interpretativo – e temporalidades – relatos contemporâneos aos acontecimentos ou não. Há, porém, o critério da representatividade do autor em meio aos seus pares contemporâneos ou futuros e da relevância da obra para a interpretação do passado brasileiro. O objeto por excelência é o texto impresso, mas em uma análise de conjunto pode vir a ser a trajetória de um determinado autor, de um grupo – brasilianistas –, de um tema – holandeses no Brasil – ou de uma corrente política – conservadora.
No que diz respeito ao método, com algumas modificações que acompanham o tipo de objeto analisado, o autor cumpre tarefas básicas, como o levantamento bibliográfico, a informação biográfica, extraindo desta a posição político-ideológica do autor e, por consegüinte, o ponto de vista expresso no texto. Seguem-se a descrição da obra e a análise crítica propriamente dita. Nessa parte, são indicados os vícios e virtudes do objeto examinado a partir do bom ou mau uso que faz do “método histórico” – coleta de fontes, crítica histórica, interpretação, e exposição. Além do “método”, são julgadas a temática, as teses e a contribuição para a ciência e para a formação da consciência histórica dos brasileiros. Por fim, são indicadas a localização do impresso, as outras edições, as bibliografias que a incluem e a fortuna crítica do autor.
Como fontes para esse trabalho, são mobilizados quaisquer instrumentos que possam informar sobre o autor e obra, estando entre os mais utilizados as bibliografias, dicionários biobibliográficos, genealogias, resenhas, biografias, autobiografias, boletins bibliográficos, catálogos e o comentário dos historiadores “mais representativos”. A história da historiografia também tem a sua função. Ela é fundamental para a formação da “consciência” e o desenvolvimento da “ciência histórica”, pois julga, esclarece e indica ao estudante e ao público em geral o que se deve ler para conhecer o passado do Brasil. A história da historiografia ensina, por meio dos bons exemplos, indicando “como se deve escrever a história”; afasta obras e autores valorizados indevidamente; e reforça e estimula a formação do intelectual engajado. A prática da história da historiografia também contribui para o fortalecimento de si mesma como disciplina – história da historiografia. Sua prática e seu aperfeiçoamento vão afastando os diletantes e incompetentes do campo, aqueles que eventualmente se aventuram em analisar a obra dos historiadores.
Não cabe neste artigo uma apreciação crítica do modelo extraído das principais análises de José Honório Rodrigues, tarefa que será tomada coletivamente a partir dos resultados obtidos com as diversas leituras sobre outros sistematizadores da história da historiografia brasileira, atualmente em curso. Mas, pelo menos alguns elementos altamente positivos para o campo, delineados por José Honório, devem aqui ser apontados. O primeiro diz respeito à iniciativa do autor em distanciar a sua análise dos clássicos critérios dos historiadores da literatura. O outro, está relacionado à passagem progressiva do seu trabalho de uma bibliografia histórica para a história da historiografia. Depois, e ligado a essa “passagem”, vem a sua atitude de fazer uma história da historiografia dentro da história e, ainda, a defesa explícita dessa atividade como uma especialidade. Por estes e por muitos outros motivos há que se concordar com a opinião de Francisco Iglésias a respeito de José Honório Rodrigues: “Quem tiver, à maneira dele, o gosto pela reconstituição da trajetória historiográfica patrícia, deverá dedicar-se à análise de quanto escreveu ... Por diversas sejam as perspectivas do futuro autor ... de certo seu trabalho será sempre o ponto de partida.” (Iglésias, 1988, p. 78).
Para citar este texto
FREITAS, Itamar. Um modelo ideal para a história da historiografia brasileira: a contribuição de José Honório Rodrigues (1949/1988). Rio de Janeiro, dez. 1999. 
Fonte das imagens
José Honório Rodrigues - <http://www.academia.org.br>.
Capa do livro História da historiografia brasileira -< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000300008>
Referências
GLESER, Raquel. O fazer e o saber na obra de José Honório Rodrigues: um modelo de análise historiográfica. São Paulo, 1976. Tese (Doutorado em História) - FFLCH, Universidade de São Paulo.
IGLÉSIAS, Francisco. José Honório Rodrigues e a historiografia Brasileira. Separata de: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 1, p. 55-78, 1988.
ODÁLIA, Nilo. Formas do pensamento historiográfico brasileiro. Separata dos Anais de História e Psicologia de Assis. n. 8, 1976.
RODRIGUES, José Honório. Historiografia e bibliografia do domínio holandês no Brasil. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional/Ministério da Educação e Saúde, 1949.
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Notas:
[1] Utilizo as expressões história, historiografia e ciência histórica com os respectivos sentidos de: passado conhecido da humanidade; escrita da história, exposição do conhecimento histórico; área de conhecimento, ramo das ciências humanas.
[2] Citação de R. G. Colingwood sem indicação da referência completa.
[3] No volume 1, relativo à “Historiografia Colonial” (1979), essas duas expressões são empregadas com o mesmo sentido. Ver o “Prefácio”.