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Mapa de Aracaju. |
Nas noites mal dormidas, tédio ou na solidão, toda espécie de pensamento nos ocorre; selvagerias eróticas, autoflagelação mental, projetos vanguardistas e outras colossais inutilidades reflexivas. Foi justamente numa dessas noites que, após uma sacrificante reflexão, descobri que o banheiro da casa da gente nunca cheira mal; ou melhor, que o banheiro da casa dos outros tem um cheiro característico, e que o nosso, não tem cheiro algum. E eu explico a descoberta: nos acostumamos tanto com o próprio cheiro que este nos passa desapercebido.
Mas não é bem sobre odores latrinários que eu desejo discorrer nestes parágrafos. Mis que um passeio pelo quarto, banheiro e cozinha, gostaria de informar da minha mais recente descoberta: assim como a nossa casa, a cidade em que moramos tem seus cheiros característicos, elementos que a diferenciam das outras. Sinto que essas proposições causam estranheza à maioria das pessoas. Sei que podem pensar: "isto é tolice, toda mediana cidade tem os mesmos odores e olores". Mas, digo que é necessário sensibilidade e um certo apego ao lugar para perceber, numa viagem, o que diferencia Aracaju de outras cidades que conheço, tais como: Porto Alegre, Recife, Salvador, Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo etc.
O cheiro é a impressão produzida no olfato pelas partículas odoríferas. Quando nos é agradável recebe o nome de perfume, olor, aroma etc. Quanto não, transforma-se nos tradicionais "mau cheiro" e "fedor". Estes são os sinônimos que o mais famoso "pai dos burros" apresenta sobre "cheiro".
Como vimos agora, são "cheiros" não um só. E para identificarmos, ou melhor – para mapearmos os cheiros de Aracaju –, é necessário participar de um desses maravilhosos "tours" cotidiano-proletários. De preferência, utilizar uma das linhas que circundam toda a cidade, tipo Bugiu-Atalaia ou Marcos Freire-Terra Dura. Tem-se que escolher o lado inverso ao cano de descarga e, é claro, um lugar ao sol, dito à janela. O ônibus é um excelente meio para captar a totalidade odorífera dessa nossa velha urbe. Por ser excessivamente lento e parar de cem em cem metros, praticamente, o cheirador leigo pode notar as mudanças bairro a bairro, os desenvolvimentos, as fusões e as rupturas ofativas.
Pois bem, voltemos à tipologia do cheiro numa viagem pela cidade. Saindo do Bugiu, o trabalhador percebe a diferença ao se aproximar da linha férrea. O sal e a secura do mato, nas proximidades da maré, marcam o lugar. Ao passar pela Av. Maranhão, o seu espírito é transportado ao campo, a uma fazenda que seus ancestrais nunca possuíram e nem ele, certamente, nunca a possuirá. É o cheiro conjuntural do esterco de vaga, impregnando as cercanias do Parque João Cleofas. Na Av. Simeão Sobral, a partir da Igreja do Espírito Santo, a fragrância dominante é o jasmim, entre outras flores cultivadas pelas antigas famílias do bairro Santo Antônio. A ruptura, a primeira, acontece na Av. Carlos Firpo: o aroma vira poluição de óleo diesel e gasolina, somente amenizado pelo convidativo olor da Saboaria Celeste. Confesso que me sinto bastante atraído por ele, embora muitas pessoas afirmem ser essse sentimento um sintoma de verminose nos intestinos.
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Vista aérea dos mercados Antônio Franco e Thales Ferraz. Aracaju-SE. |
O interessante é que vendendo, comprando ou simplesmente transitando pelo local, esse cheiro não é tão perceptível quanto da janela desse nosso ônibus. É que como se os passantes se acostumassem com o cheiro da "própria casa".
Alguns mais "afetados" comentam: "esse é o legítimo cheiro de povo". Reclamam durante a semana. Mas, no sábado, lá estão contribuindo com a mesma química odorífera que antes criticaram.
Seguindo pela Av. Ivo do Prado, o cheiro do "apicum" do Bugiu vem à memória, dosado com o ácido que escapa dos esgotos do centro. A síntese é complementada com mais óleo diesel e gasolina. Há pouco, passeando pelo local, à noite, e com o auxílio da brisa do Rio Sergipe, era possível chegar ao êxtase com a torrefação do Café Aragipe, trabalhando a todo vapor (e toda fumaça). Ainda na mesma avenida, a partir da Des. Maynard, o cheiro de combustível perde terreno para o adocicado perfume do casario quase secular e dos seus oiteiros. Passando pela Praia 13 de julho, temos a remota sensação de estar no mercado. É incrível como os mesmos freqüentadores que reclamam dos odores do Mercado Tales Ferraz conseguem se acostumar com a “fragrâcia” da Praia 13 de julho.
No espaço entre a 13 de julho e o Conjunto Augusto Franco, final dessa viagem, encontra-se uma comunidade da qual não consegui descobrir o cheiro característico e, por hora, está enquadrada numa categoria não prevista no “Aurélio”: o cheiro neutro. Os pobres dizem: “um lugar que não fede nem cheira”.
A minha viagem termina por aqui. Descrevi o suficiente para explicar que Aracaju tem um cheiro particular. Seu cheiro ativa a memória, renova o afeto e reforça a solidariedade que parte da população devota a si própria e à cidade onde mora. A ausência desse cheiro nas outras cidades nos faz sentir desprotegidos. Ficamos com a impressão de que todas as pessoas e lugares são suspeitos e até ameaçadores. Eu os convido, então, a fazer o outro percurso proposto (Marcos Freire-Terra Dura) ou Em caso de ojeriza aos ônibus), identificar o cheiro do seu bairro, condomínio ou apartamento, ajudando-nos a conhecer a cidade e assim contribuir para a elaboração da segunda parte dessa cartografia do perfume.
Fontes das imagens
Mapa turístico de Aracaju. <www.hbturismo.com.br.jpg>. Acesso em: 29/11/2010.
Vista aérea dos mercados Antonio Franco e Thales Ferraz. <http://4.bp.blogspot.com>. Acesso em: 29/11/2010.
Para citar esse texto
FREITAS, Itamar. Aracaju: cartografia do perfume. Azimute, Aracaju, mai. p. 3, 1995.
Fontes das imagens
Mapa turístico de Aracaju. <www.hbturismo.com.br.jpg>. Acesso em: 29/11/2010.
Vista aérea dos mercados Antonio Franco e Thales Ferraz. <http://4.bp.blogspot.com>. Acesso em: 29/11/2010.
Para citar esse texto
FREITAS, Itamar. Aracaju: cartografia do perfume. Azimute, Aracaju, mai. p. 3, 1995.