quarta-feira, 16 de outubro de 2013

X Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História na Universidade Federal de Sergipe

Ilka Miglio, Ernesta Zamboni, Angelo Antoniolli, Leônia Carvalho, Fábio Maza e Marizete Lucini.
Foi encerrado ontem (17/10/2013), na Universidade Federal de Sergipe, o X Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História - X ENPEH. O evento reuniu especialistas de catorze estados brasileiros, além de convidados da Argentina e do Uruguai, no Campus de São Cristóvão, da Universidade Federal de Sergipe (UFS) durante três dias. 
O X ENPEH foi iniciado com a apresentação do Grupo de Metais da UFS, dirigido pelo maestro Ione Bressan. Da mesa de abertura participaram Angelo Antoniolli, reitor da UFS, Ernesta Zamboni, presidente da Sociedade Brasileira de Ensino de História (SBHE), Ilka Miglio, representante da Universidade Tiradentes (Unit), Leônia Carvalho, Vice-diretora do Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH) da UFS, Fábio Maza, coordenador do mestrado em História da UFS e Marizete Lucini, coordenadora do X ENPEH.
Grupo de Metais da UFS - Tiago e Bruno (trompetes), Thiago e Gesiel (trombones) e Arthur (trompa).
Bernard Charlot e Marizeti Lucini.
Após as falas iniciais, Bernard Charlot, professor da UFS e da Universidade Paris VIII, proferiu conferência de abertura. Charlot iniciou sua fala afirmando que a aprender é a soma de atividade intelectual, sentido e prazer e indicou as questões fundamentais que podem constituir uma agenda de pesquisa sobre o ensino de história, às quais ele costuma seguir: Qual a atividade intelectual dos alunos no ensino de história? Qual o sentido de estudar história? Que prazer tem o aluno ao estudar história?
Para a maioria deles não faz sentido estudar história porque a disciplina é quase sempre apresentada como uma repetição. Não tem utilidade no cotidiano. Trata de coisas antigas, talvez até mentirosas. Com essas impressões, qual tipo de prazer é experimentado no ensino de história?
Visto desse modo, o problema central do ensino de história não está no conhecido conflito entre pedagogias tradicionais e pedagogias escolanovistas. Abordando o assunto sob o ponto de vista das práticas pedagógicas, percebe-se que o professor, predominantemente, fala para um “eu epistêmico” e não ao “eu empírico”.
Sob o ponto de vista psicanalítico, os professores adotam a ideia de “motivação”, quando o importante seria mobilizar o aluno no sentido de fazer nascer “novos desejos”. Para isso é fundamental dizer ao aluno, sinceramente, a razão de se estudar história, apresentar conteúdos que lhe possibilitem perceber sentido, pois é somente no encontro entre o conteúdo intelectual e um desejo profundo no aluno que a matéria transforma-se em fonte de prazer.
Do ponto de vista sociológico, deve-se compreender que a ideia de fracasso escolar em história está relacionado à sua “posição social objetiva” – o analfabetismo dos país, trajetória de gerações dos familiares –, mas também à sua “posição social subjetiva”, ou seja, aquilo que o aluno fará do que “a sociedade fez com ele”.
Plateia do X ENPEH, pouco antes da solenidade de abertura do evento.
Por uma abordagem antropológica, enfim, é importante repensar a pedagogia tradicional. A criança é o encontro de três histórias: a história da espécie humana, da história singular de si mesma, da história da sociedade envolvente. Dizendo de outro modo, criança é ser humano, membro de sociedade e cultura, sujeito particular. Fruto dos processos de humanização, socialização e subjetivação.
À tarde, Ilka Miglio, da Universidade Tiradentes (Unit) coordenou a mesa redonda “20 anos de Pesquisadores do Ensino de História”, reunindo as professoras Ernesta Zamboni, da Universidade de Campinas (Unicamp), e Lana Mara de Castro Siman, da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG).
Ernesta Zanboni rememorou as atividades do I Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História (ENPEH), ressaltando o fato de os primeiros expositores, à época, ela própria e Marcos Antônio Silva, representarem as áreas da educação e da história. A professora retomou antigas falas e a tese de Ilka Miglio para inventariar as diferentes funções do ENPEH, desde a busca por um estatuto científico para a pesquisa sobre ensino de história, na primeira edição em 1983, em Uberlândia-MG, passando pela iniciativa de ampliar o diálogo com pesquisadores do exterior – Portugal, França, Bélgica –, efetivado no 8º encontro, em Belo Horizonte-MG, até o encontro atual, São Cristóvão-SE, que visa fortalecer a pesquisa sobre políticas e práticas do ensino de história no Brasil.
Ernesta Zamboni, Ilka Miglio e Lana Siman.
Em seguida, Zamboni apresentou características dos grupos de pesquisa que se ocupam do ensino de história no país. Anunciou que os grupos mais jovens, preocupados com questões indígenas, afrodescendentes e meio ambiente, situam-se, predominantemente, nas regiões centro-oeste, norte e nordeste. Os mais antigos relacionam ensino de história à educação e à história e já começam a estabelecer trocas com pesquisadores de outros países. Em ambos, entretanto, predomina o tema da formação de professores, com foco na escola básica, educação à distância e formação de redes.
Lana Mara de Castro Siman introduziu a sua fala justificando a existência da área do ensino de história a partir da ideia de campo científico, formulada por Pierre Bourdieu. Também caracterizou o trabalho de pesquisa na referida área como fragmentado, apontando alguns desafios atuais, a exemplo da promoção da organicidade temática dos grupos com necessária solidez teórico-metodológica, de articulações interinstitucionais mediante redes de pesquisadores, emprego de abordagens fundadas em diferentes escalas, encontros interdisciplinares e produção de obras coletivas.
O engajamento na produção e no exame das políticas públicas, nas práticas dos movimentos sociais, nas iniciativas de produção de diferentes práticas de memória e, ainda mais importante, a identificação das mudanças recentes que se nos apresentam no cotidiano, foram também demandas anunciadas por Lana Siman, como fundamentais ao trabalho dos pesquisadores e dos grupos de pesquisa sobre ensino de história no Brasil.
O primeiro dia de trabalhos foi encerrado com o lançamento de livros, ocorrido entre as 17 e as 19h no hall da reitoria, que contou com a apresentação do trio musical, formado pelos também professores Haroldo, Flori e Bob Zé.
Haroldo, Flori e Bob Zé.
Cristiani Bereta (UDESC) - História,memória e culturas. 
Cristiane Tavares (FSLF) - A Universidade de Coimbra e a reforma pombalina de 1772.

Elison Paim (UFSC) - História, memória e patrimônio. Maria Aparecida Bergamaschi (UFRGS) - Ensino de história no Cone Sul.
Juliana Aguiar, licenciada em história e monitora do X ENPEH.
O segundo dia (16/10/2013) foi marcado pelas atividades dos pesquisadores nos Grupos de Diálogos de Pesquisa (GPD), distribuídos em nove áreas: Ensino de história nos anos iniciais (GPD1), Formação de professores (GPD2), Currículo (GPD3), Cultura diversidade e alteridade (GPD4), Materiais didáticos (GPD5), História e memória em espaços escolares e não escolares (GPD6), Educação histórica (GPD7), Ensino de história e juventude (GPD9) e História do ensino de história (GPD10).. Cofiram as imagens de algumas apresentações e ou comentários dos trabalhos selecionados.

GPD 1 - Ensino de história nos anos iniciais do ensino fundamental.  Marta Margarida de Andrade Lima (última) apresenta
Sobre aquilo que nos dispomos a ver: práticas escolares que subvertemo olhar pelo lugar da falta.

GPD 2 - Ensino de história e formação de professores. José Lúcio da Silva Menezes (terceiro) apresenta O lugar do negro 
no Brasilnotas sobre um curso de história e cultura afro-brasileira. 

GPD 3- Ensino de história e currículo. Maíra Ielena Cerqueira Nascimento (primeira) responde questões sobre Ensino de história
nos Estados Unidos da América e Taxonomia dos objetivos educacionais
(1916-1980).

GPD 4 - Ensino de história, cultura, diversidade e alteridade. Luciano Magela Roza discute
Representações de mulheres negras no livro didático de história.

GPD 5 - Ensino de história e materiais didáticos. Fernanda de Paula Gomides (segunda) apresenta A cidadania forjada em
materiais didáticos para o ensino de história
: experiências durante o regime militar brasileiro. 

GPD 6 - História e memória em espaços escolares e não escolares. Pesquisadores acompanham os comentários das
coordenadoras Sonia Miranda e Júnia Sales Pereira (de costas).

GPD 7. Educação histórica. Maria Auxiliadora Moreira Schmidt  (quarta) comenta o texto de Ana Claudia Urban
O trabalho com fontes históricas no ensino fundamental.

GPD 9 - Ensino de história e juventude. Nucia Alexandra Silva de Oliveira apresenta Internet, ensino de história
e a cultura histórica dos jovens brasileiros.

GPD 10 - História do ensino de história. Arlette Medeiros Gasparello (terceira) comenta resultados de pesquisa sobre a
história dos livros didáticos que circularam no século XX.

Ao final da tarde foram expostos os posters e o material didático construído por alunos de graduação, principalmente aqueles vinculados ao Programa de Iniciação à Docência (PIBID).





No último dia (17/10/2013), pela manhã, os GPD realizaram a terceira seção de trabalhos. A tarde foi reservada para a assembléia da Sociedade Brasileira de Ensino de história. Na reunião, conduzida por Ernesta Zamboni, os coordenadores dos GPD relataram as ações de cada Grupo, apresentando perfis das pesquisas e dos participantes e avaliando o novo formado de discussão ensaiado no X ENPEH. (Ao contrário de apresentações livres, os coordenadores privilegiaram o comentário sobre cada trabalho e os debates a respeito das questões sobre as quais se debruçaram os diferentes grupos - formação de professores, juventude, história do ensino de história, entre outros).

A assembléia também aprovou moções de apoio à luta dos professores do Rio de Janeiro pelo Direito à greve (Arlete Gasparelo), deliberou sobre a próxima sede do XI ENPEH - será no Rio de Janeiro, nas dependências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Na ocasião, Renilson Ribeiro (UFMS) ressaltou a importância da interiorização do debate acerca da pesquisa sobre ensino de história e manifestou interesse do grupo - formado pelo próprio e, ainda, Marcelo Fronza e Alexandra Lima - no sentido de que a edição 2017 do ENPEH ocorra na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Na sequência, Júnia Furtado confirmou a próxima edição do Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História, a ser realizado em Belo Horizonte-MG, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).

A assembleia também conheceu o projeto da Revista da Sociedade Brasileira de Ensino de História, apresentado por Murilo Resende e Aléxia Franco, concebida no padrão "Qualis A1". Por fim, a plenária aprovou a criação de um grupo de trabalho que se encarregará da resolução de impasses jurídicos que envolvem continuidade da Sociedade Brasileira do Ensino de História como entidade autônoma. O grupo ganhou a seguinte formação inicial: Paulo Melo, Flávia Caimi, Sandra Oliveira, Renilson Ribeiro, Margarida Oliveira, Elenice Rocha, Lana Siman, Ana Monteiro, Alexia Franco e Carlos Augusto. 

Finda a reunião, os presentes assistiram à conferência de Ana Elena Zavala Freire, da Facultad de la Cultura e do Instituto Universitario "CLAEH" do Uruguai, sob o título "Ensino de história: moradas políticas e desafios práticos na contemporaneidade".
Zavala Freire ressaltou que história e política estiveram em conluio nos últimos dois milênios e defendeu o ensino de história como um trabalho sujeito à prescrições de fundo estatal, coletivo e pessoal. Sua fala, porém, focou os últimos 100 nos, período no qual localiza o entrelaçamento entre estado-nação, historiografia e ensino de história em várias partes do mundo.
A conferencista também afirmou que esses três privilegiados objetos foram modificados entre o fim do século XIX e início do XXI, situação que impõe aos interessados alguns desafios. É necessário repensar essa sequência de determinações: estado-nação que pauta a historiografia que pauta o ensino que, por sua vez, forma pessoas nos moldes do projeto estatal. Em outras palavras, é necessário "reconsiderar os termos do pacto original".
Zavala afirma a necessidade de repensar a própria ideia de nação, incorporando novas categorias historiográficas - nação imaginada, por exemplo -, refletir sobre os modos de uso das novas temáticas - sexualidade, alteridade - e abordagens - a micro-história, a história vista de baixo -, repensar a ideia de aluno como ente passivo, de professor como transmissor automático dos programas estatais, de ensino de história, enfim, como servo ou aliado do Estado para a formação política. O "pacto original" seria melhor conduzido, então, com apenas dois agentes: a historiografia - produtora de conhecimento - e o ensino de história - difusor do mesmo, numa dinâmica que põe a sociedade nas duas extremidades da relação. Um novo pacto que incluísse outra vez o Estado somente seria possível se formulássemos um ensino de história latino-americana dentro de moldes "pós-coloniais".

Após a fala de Zavala Freire, Marizete Lucini (UFS) deu por encerrado o evento agradecendo a participação do público, a junção de esforços entre os diferentes patrocinadores e louvando o trabalho qualificado e empenhado dos alunos do curso de Pedagogia, do PIBID-história e do PET-UFS.

[Em edição].

Um comentário:

  1. Uma exposição muito pertinente de um evento definido como um dos mais importantes no âmbito da pesquisa em Ensino de História.

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