domingo, 5 de outubro de 2003

O sergipanismo de Prado Sampaio

Joaquim do Prado Sampaio Leite (1865/1932) era bacharel em direito e viveu sua maturidade intelectual no período áureo de um movimento intelectual renovador, a Escola do Recife (Cf. Paim, 1981, p. 111-134). Titulou-se em 1889. Atuou como promotor público, juiz de direito, secretário de polícia e advogado. Fez-se reconhecer por sua produção poética e filosófica, deixando, nas páginas dos periódicos locais, algumas das mais contundentes marcas do jeito de demonstrar a identidade sergipana, de rememorar os homens famosos do Estado, de pensar e de produzir ciência. (Cf. Guaraná, 1924; Freitas, 1998; 2000).
Para o programa científico do IHGS, Sampaio estabeleceu que não mais se deveria “aclarar pontos obscuros ou recantos crespusculares” da história e da geografia de Sergipe. O grêmio estaria, sim, encarregado de estudar antropogeografia sergipana. O que interessava naquele momento era relação homem/meio físico, inspirado nas teses de F. Ratzel. (Cf. Sampaio, 1913, p. 24-25).
Com a adoção da antropogeografia, o estudo da história seria renovado. Deixaria de configurar-se numa “infinda comemoração de batalhas ao desfile secular de dinastias sepultas” – vê-se como esse tipo de história política era alvo de fortes críticas já no início do século XX. O que se buscava, agora, no saber de Clio, era o “evoluir das ciências, das letras, das artes, das indústrias, das religiões”, “as criações fundamentais da humanidade”, em suma, os artefatos da civilização. A função dessa nova história e desses novos objetos era auxiliar os estudos sobre a “sociologia dos povos” – do povo sergipano em particular. (idem, p. 24).
Prado Sampaio também tratou da construção e da conservação de alguns mitos formadores de Sergipe. Políticos e intelectuais foram os personagens privilegiados. Sua atitude era panegírica, ainda que justificada em termos científicos. Dentro desse espírito ritualístico, vários sergipanos  foram homenageados: Ivo do Prado, Armindo Guaraná, Cid Lins, Brício Cardoso, Sílvio Romero, Tobias Barreto, Inácio Barbosa, e M. P. Oliveira Valadão. Aqui e ali, uma referência às forças mecânicas, ao valor dos mortos no destino dos vivos, à lei de adaptação etc.
Além das questões memorialísticas, ganhou relevo, na sua produção, o esforço em comprovar e defender a identidade sergipana. Foi o conjunto de textos mais rico e também o mais complexo. O seu sergipanismo foi gestado sobre o paradigma dos vulgarizadores da biologia que atuaram entre a última década do século XIX e a primeira do século XX. (Cf. Oliva, 1977; Freitas, 1998).
As idéias de sociedade (organismo), ciência (busca pela verdade), método (experimental), tempo (progressivo, linear), e motor da história (a evolução das espécies) apontam para uma mescla heterodoxa entre as teses dos pensadores Ernest Haeckel (1834/?) e Herbert Spencer (1820/1903)
Essa fusão resultou numa teoria da identidade e a sua imediata aplicação. A teoria prescrevia a “unidade etno-psicológica” sergipana sob o regime de duas leis: lei de hereditariedade e lei de adaptação. Os elementos hereditários (étnicos) eram estáticos e provinham da psicologia nacional. Assim, os mitos e as lendas, importadas do Brasil, Sergipe já os possuía com vantagem: o povo sergipano apresentava-se muito mais homogêneo do que o povo brasileiro, fato comprovado pela unicidade da língua local, já que a ação da imigração estrangeira no Estado fora quase insignificante.
Quanto aos elementos dinâmicos – história, literatura, arte e ciência – que sofriam os influxos dos rios, os problemas com a fertilidade do solo, as secas, a precariedade do porto, da relação homem-meio, enfim, estes já se encontravam em franca especialização, ou seja, era possível visualizar as singularidades da nossa experiência histórica e da nossa produção estética, quando postas em comparação com o trabalho de outros Estados. Exemplificando: na história, Sergipe – mais que [que o baiano] –, contribuiu durante as lutas pela integridade territorial e política do Brasil.
Na literatura, Sergipe ajudou a renovar a poesia, a filosofia, e o padrão estético brasileiros, além de desvelar a história da democracia e praticá-la com maestria no parlamento nacional. Esse foi o legado de alguns sergipanos, como Tobias Barreto, Silvio Romero, João Ribeiro, Felisbelo Freire e Fausto Cardoso. Portanto, Sergipe já era “personalidade” na história, economia, literatura e ciência. Por volta de 1910, só não conseguira autonomia sob o ponto de vista do território geográfico, desfalcado pela hegemonia baiana.
Grande parte dessas teses está depositada nos ensaios A literatura em Sergipe (1908) e Sergipe artístico, literário e científico (1928), provavelmente a primeira síntese publicada em livro de uma história da cultura sergipana. Esses trabalhos foram interpretados como superficiais, genéricos (Cf. Lima, 1971, p. 80-81; 1984, p.19) e, com grande dose de acerto, o seu autor foi considerado um “intelectual diletante” (idem, 1971, p. 81), isso quando não o acusaram de ter apenas “vomitado idéias e teorias mal digeridas”. (Diniz, apud. Lima, 1971, p. 81).
Assim mesmo – e por isso mesmo –, penso que suas obras devem ser lidas compreensivamente, sobretudo pelos que também vêem a sergipanidade em termos de “caráter” e costumam compará-la com portentosas baianidades, mineirices, gauchismos etc., concluindo por uma incômoda  ineficiência do nosso “orgulho de ser sergipano”.
Para a reflexão, fica a tese de Prado Sampaio: “É, de fato, o sergipano um misto de acanhamento e de audácias”; de acanhamento, criado pelas condições do meio físico e social – situado num minúsculo território, comprimido pela Bahia, desprestigiado pelo poder central; e de audácias, como fenômeno de reação e de revolta, ante às sucessivas disputas e perdas políticas nos embates com poderosos Estados da federação. (Cf. Sampaio, 1928, p. 102). Esse refrão está completando cem anos e parece que vai ecoar por mais alguns anos.

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. O sergipanismo de Prado Sampaio. A Semana em Foco, Aracaju, p. 6B-6B, 05 out. 2003.

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