domingo, 23 de maio de 2004

Para a história de Itabaianinha

E a história de Itabaianinha? Como foi contada no livro lançado na semana passada? Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Itabaianinha (Editora da UFS, 2003) é anunciado como livro de memórias e de crônicas – as memórias de José Carlos de Oliveira (1919/...), oficial do registro civil aposentado do Tribunal de Justiça do Estado. Seu filho, Gilmário Macedo de Oliveira, organizador e co-autor, explica bem a situação limite da escritura: “avisado do crepúsculo que se aproximava, ele reuniu suas forças, suas últimas energias e, com dedicação e zelo, entregou-se à tarefa de ser um dos cronistas da sua terra natal.”
Repostos o gênero e as circunstâncias, cabem ainda as perguntas: a proximidade da morte modificaria a estrutura da narrativa? Que tipo de crônica fora escrita sobre Itabaianinha? Trata-se, na verdade, de um clássico relato de história local ao modo da primeira geração do IHGS.
O livro é aberto com curtas relações de filhos ilustres, intendentes e prefeitos, juízes e promotores, vigários e senhores de engenho, ou seja, gente que inscreveu suas memórias na política e na economia do lugar, deixando marcas – umas trágicas, outras cômicas – nas lembranças dos “sem nome”. Mas, o seu José Carlos era um “sem nome”? Certamente que não.
As curtas relações que tratam dos “com nomes” situam-se entre a apresentação e o prólogo. É preciso registrar que, independentemente do plano original dos manuscritos, elas não parecem contribuir para a harmonia do livro que ganha a forma narrativa e não tópica, a partir da página 33. Além disso, não entendi o porquê do título: “Freguesia”, já que as experiências relatadas extrapolam os limites dessa jurisdição eclesiástica.
Seguem-se os capítulos sobre religião, política, festas populares, e sobre o trabalho. O período mais “lembrado” remete-nos às décadas de 1920 a 1940.  Há perfis biográficos de personalidades dos três poderes, de professores, jornalistas, artistas e religiosos; relatos sobre fatos inusitados, como a chegada dos trens, dos automóveis e sobre a seca de 1932.
Grande parte do livro é também ocupada pela descrição de edifícios públicos e privados, de ruas praças e becos. Em quaisquer desses segmentos, além da descrição – às vezes, rigorosa e adjetivada em excesso –, há freqüentemente a inserção de saborosos contos [a parte “inventada”?], dos quais destaco o episódio em que o funcionário público Antônio Pinto de Abreu fraudou os boletins meteorológicos, chamando a atenção dos técnicos da SUDENE para “o fenômeno do micro-clima estável” de Itabaianinha.

Algumas informações desse livro me chamam a atenção pela regularidade com que estão aparecendo nas histórias locais recém publicadas: a idéia de que o mundo se encerra nas cercas de cada cidade; a partidarização (em dois cordões) de instituições culturais – filarmônicas, clubes carnavalescos, procissões; e a idéia de progresso e decadência baseada na fortuna do comércio – os algozes de Itabaianinha são a BR 101 e a cidade de Umbaúba.
Outros dados aguçam a curiosidade pelas luzes que lançam sobre a história de Sergipe (síntese): o trânsito de mão-de-obra entre Itabuna/Ilhéus e Itabaianinha, a importação de práticas carnavalescas do Rio de Janeiro – sem passar por Aracaju –, e a “invasão da cidade pelos fanáticos do ‘Céu das Carnaíbas’ são exemplos destacados. Deste fenômeno messiânico, alguns pesquisadores da UFS têm buscado pistas nos arquivos, sem resultados alentadores. No livro existe página e meia de história.
Mas, há também aquela informação sutil que provoca uma dúvida insuportável: o relato sobre casas, homens, ruas, trabalho, sobre a vida enfim, transmite ao leitor a idéia de tranqüilidade que beira a monotonia. Tem-se a impressão de que o tempo passa lentamente, apesar das rusgas eleitorais, das esporádicas aparições do circo e do cinema. O tempo só parece ser quebrado com a chegada da ferrovia. A minha dúvida é se as pessoas de Itabaianinha, nos primeiros anos do século passado, assim percebiam o movimento das suas vidas, um cotidiano “circular”, “miúdo” e “triste” ou se esse sentido costuma ser construído pelos cronistas/historiadores que não conseguem despir-se do “bem estar” da nossa civilização.
Também por conta dessa dúvida, a escritura desse livro fortaleceu ainda mais os meus juízos quanto às dificuldades de se escrever uma história do município ou uma história da cidade. Sem medo de exagerar, é tão difícil fazer história local quanto ensaiar uma história do homem sobre a terra – a história geral, antiga história universal. Vê-se como os autores esbarram com problemas de seleção dos agentes históricos – as autoridades, o vulgo, a classe –, de períodos a enfocar, de dimensão da experiência – o religioso, o político etc. – e de ordenamento dos textos a expor – a sincronia ou a diacronia? –, não obstante o esclarecimento de que o(s) autor(es) prefere(m) seguir os “fios da memória” e não os clássicos modelos corográficos.
Mas, a dificuldade não indica o limite entre o autodidata – o memorialista – e o historiador por formação acadêmica – a iniciativa da Editora da UFS é meritória. O grande problema é mesmo o da impossibilidade de apreender a totalidade, de abranger o máximo de fatos e dimensões da experiência dos homens em determinada comunidade, num golpe de vista, numa centena de páginas. Neste e em outros livros, o real, sempre fascinante, sempre fugidio (Cf. Veyne, 198.), acaba representado, não raramente, como “as contas do colar histórico” (Cf. p. 40-52) ou como inventário de lembranças – peça por peça, desconexas e com inoportunas repetições.

Para citar este texto
FREITAS, Itamar. Para a história de Itabaianinha. A Semana em Foco, Aracaju, p. 6B-6B, 23 maio 2004.

Este artigo foi publicado no livro Historiografia sergipana.
Para ver sumario desta obra, acesse: < http://itamarfo.blogspot.com/2010/11/historiografia-sergipana.html >.

Nenhum comentário:

Postar um comentário