Detalhe de manifestações da "Primavera árabe". |
“Visões sobre o contemporâneo” é o título do Seminário que acontecerá nos dias cinco e seis de junho na Universidade Federal de Sergipe, organizado por Dilton Maynard, lider do Grupo Estudos do Tempo Presente - GET.
Do evento, participarão especialistas na história do tempo presente de universidades situadas em La Plata (Argentina), Rio de Janeiro, Paraná, Bahia, Pernambuco e Sergipe. O Seminário também oferecerá oficinas sobre as referidas temáticas, coordenadas pelos professores Francisco José Alves (UFS), Anita Lucchesi e Monica Santana (UFRJ).
Como
preparação à participação do Grupo de Pesquisas em Ensino de História no
evento, disponibilizo minhas notas de leituras sobre as noções de contemporâneo
e de tempo presente, temas bastante discutidos, mas pouco definidos pelos comentadores
da área.
Para
citar apenas um exemplo, cito o recente capítulo de livro inserto nos Novos domínios
da história: ensaios de teoria e metodologia da história, coordenada por Ciro
Cardoso e Ronaldo Vainfas (2012). Em quinze páginas dedicadas à tríade
“História, memória e tempo presente”, Márcia Maria Menendes Motta apresenta o
problema da relação história-memória, os argumentos, os céticos e os defensores
de uma história do presente e os principais desafios para efetivá-la
cientificamente. A autora, no entanto, apesar de colocar-se entre os
defensores, fica a nos dever a sua definição sobre o presente e/ou a história
do presente.
Vejamos,
então, como os termos são definidos a partir de algumas monografias e trabalhos
de vulgarização.
Reinhart Koselleck (1923/2006) |
Koselleck é conhecido historiador dos historiadores, isto é, um erudito dos eruditos. Aquele teórico a quem os epistemólogos da história se referem para fundamentar seus novos argumentos. Na coletânea Futuro passado [1979][1] ele está preocupado com o “sentido de tempo histórico”. Assim, investiga histórias e dicionários que registram – para usar sua díade – as "experiências" e as "expectativas" de diferentes sujeitos em situações concretas, para buscar indícios linguísticos que possibilitem o conhecimento da relação passado/futuro.
O
exame filológico e a história dos conceitos, enfim, lhe permitem chegar à
conclusão de que o registro dos acontecimentos contemporâneos ao historiador é
prática bastante antiga. Tal registro – “historiografia aditiva” –, entretanto,
era efetivado dentro de uma concepção estática do tempo (Cf. Koselleck, 2006, p.
276).
É,
portanto, a descoberta (a consciência) de que se vive (experimenta) um novo
tempo [neue Zeit], “que se distingue dos anteriores como um novo período” (Koselleck, 2006, p. 280) que explica o surgimento da expressão história
contemporânea [neueste Geschichte – história mais recente]. E koselleck
exemplifica: “Assim, [J. C.] Büsch, em 1975, antes da Revolução Francesa,
organizou a história, segundo o tempo, em história antiga média e nova,
até os nossos tempos”, distinguindo, neste último, a história contemporânea,
que compreendia, segundo Büsch, “o tempo da última geração, ou deste século”
(Büsch, 1775, apud. Koselleck, 2006, p. 280). Kosellec esclarece ainda que “o
teste para se saber desde quando a história de seu próprio tempo passou a ser
sentida como nova, no sentido enfático do termo, seria a mudança de denominação
de nostrum aevum [nossa era] para nova aetas [nova idade], ou do tempo
presente, como sempre aparece nos títulos dos livros, para novo tempo”
(Koselleck, 2006, p. 277).
Noiriel
é um dos maiores especialistas sobre historiografia francesa, com destaque para
a produção da escola metódica e da primeira geração da escola dos Annales. Em Qu’est-ce que l’histoire contemporaine? [1998],
sua preocupação é preencher uma lacuna detectada nos manuais da área: a
ausência de visão de conjunto (a maioria limita-se a um período ou domínio
da história). Por dever de ofício, portanto, escreve um capítulo para tratar
das “diferentes definições de “contemporaneidade” propostas há um século.
Ele
inicia com uma provocação: a prática de produzir (e,
consequentemente, a prática e o gênero) história contemporânea nasce na Grécia
de Heródoto e Tucídides. Isso ocorre porque o sentido de pesquisa forjado pelos
gregos para a palavra história está muito mais próximo do trabalho dos
jornalistas e dos sociólogos e menos do método histórico propriamente dito
(fundado, apenas no século XIX), uma vez que os referidos historiadores
trabalhavam com o testemunho de pessoas vivas. De imediato, entretanto, Noiriel
trata de revelar o anacronismo presente em sua afirmação. As concepções de
tempo e as estratégias de se chegar à verdade professadas pelos antigos eram
muito diferentes das concepções de tempo e verdade dos historiadores modernos.
Ao
detalhar essa mutação, Noiriel recupera uma das explicações de Koselleck – a
invenção da “perspectiva” e o conceito de “aceleração” –, afirmando que a
história contemporânea somente é admitida como campo quando se inauguram as
mudanças do tempo cíclico para o tempo linear e da ideia de escrita da história
como cópia do real para a ideia de versão. Quando isso ocorre? Obviamente, a
partir da Revolução Francesa. Foi o trauma provocado na “consciência coletiva
europeia” que contribuiu para a ideia de uma “aceleração da história”. Deste
tempo em diante, história passa a significar o acontecido (passado) e também o
conhecimento sobre esse acontecido.
Cabeça de Luis XVI
|
Na
França, entretanto, seu emprego é tardio e por uma simples razão. Como o
sentido etimológico de “contemporâneo” (forjado a partir das raízes latinas cum e tempus) significa, literalmente, “no mesmo tempo”, a história
contemporânea confudir-se-ía com a memória coletiva (a história produzida pelos
gregos), algo impensável para o século (XIX) que fundamentou a cientificidade
da história na separação passado/presente ou história/memória. História
contemporânea, ao final do século XIX seria, na França, uma expressão que
“associa dois termos contraditórios” (Noiriel, 1998, p. 10).
A
adoção da história contemporânea pelos historiadores profissionais
(universitários) não é acompanhada da resolução do paradoxo – toda história é
história contemporânea, por que o historiador sempre escreve no presente e a
história contemporânea não existe, porque a expressão é uma contradição entre
termos. Por outro lado, foram as demandas escolares e a necessidade de afirmação dos republicanos que viabilizaram a sua entronização na universidade Francesa. Nos anos 1950, por
sua vez, interesses estatais para a explicação sobre os horrores provocados pelas
guerras mundiais darão origem às instituições históricas que exploram – ao contrário da "história contemporânea" (já contemplada com seus institutos) – o
“tempo presente”.
Tal
presente (dentro da premissa de que o passado condiciona o presente), no início
e, em outras roupagens, ao longo do século XX, será compreendido como o
resultado da ação: 1. da atividade das “instituições” (o Estado,
infraestruturas econômicas, por exemplo); 2. das “tradições” culturais (uma
espécie de inconsciente coletivo formado pela transmissão da tradição dos pais
às crianças, de geração a geração); e 3. das “heranças” biológicas
(determinações de ordem genética). (Cf. Noiriel, 1998, p. 19-20).
Iniciemos
com o Dicionário de ciências históricas
[1986]. J. P. Azema escreve o verbete “História do tempo presente. É portanto,
suscinto e objetivo na descrição dos sentidos, da trajetória dos usos da
expressão e também sobre os desafios enfrentados pelo tempo presente na
condição de novo domínio entre os historiadores.
Grande
parte das informações que ele fornece podem ser colhidas com maior detalhamento
nos livros de Noiriel e de Koselleck. Aqui, é importante, apenas fixar a
definição de história do tempo presente no presente da redação do Dicionário [1986] que é bem próxima à
criação do Instituto de História do Tempo Presente - IHGP (1978): “Podemos
delimitar o seu campo [até a década de 1930] pela história muito imediata e [no
momento da criação do IHGP] pela sobrevivência de testemunhas: poderíamos,
antes de tudo, qualificá-la de história com testemunha; atualmente, faríamos
com que remontasse à década de 1930, o que é, além de tudo, no caso francês, em
termos de gerações, um bom divisor” (AZAMA, 1996, p. 736).
O
mesmo procedimento adotado com Azama é aqui seguido para o exame do verbete “História
contemporânea”, escrito por O. Demoulin (1996) e publicado no Dicionário. Do gênero, é suficiente guardar a relação estabelecida
entre história contemporânea e o ensino e a sua definição, bastante usual no
senso comum do professor do historiador brasileiro.
“A
história contemporânea é uma história muito estranha. Nascida na França, da
reforma do ensino secundário de Victor Duruy (1867), ela se definiu, de
princípio, como o estudo do período transcorrido de 1789 ao fim do Segundo Império.
Ainda hoje, para grande espanto dos estrangeiros, a queda do Antigo Regime
constitui o terminus a quo do
universitário contemporâneo. Assim, a ambiguidade da expressão leva a procurar
sucedâneos, instant history americana, história imediata ou história do
presente” (Demoulin, 1996, p. 173).
Vejamos,
por fim, o sentido de tempo presente em um manual destinado aos cursos
superiores de história na França. François Cadiou, Clarisse Coulomb, Anne
Lemonde e Yves Santamaria, os autores, mesclam história da historiografia,
epistemologia (teoria da história) e metodologia –, contemplando a experiência
que vai da Grécia clássica à Europa do final do século XX. Aí, em Como se faz a história: historiografia,
método e pesquisa [2005], três capítulos são reservados ao estudo da história
contemporânea e da história do tempo presente.
A
história contemporânea, entretanto, tem o sentido de escrita da história que se
produz no período contemporâneo. Isso não impede, porém, que ele expresse, mediante
fontes secundárias, alguns sentidos para a “história do tempo presente”, com
podemos observar nas citações que se seguem.
Onze de setembro |
“A
expressão história do tempo presente impôs-se em face da história
imediata[2]
proposta por Jean Lacouture, mas não solucionou as questões de limite cronológico:
Danièle Voldman havia proposto como fronteira a presença de testemunhas e
atores vivos. Nessa perspectiva, o tempo presente seria móvel. Um outro
modo de delimitar seu início consistiria em identificar um acontecimento
original (1917; 1945; 1989) que, dependendo de sua proximidade, poderia ampliar
ou reduzir o campo do historiador do tempo presente: o nosso não começaria no
11 de setembro?” (Cadiou et. al, 2007, p. 170).
Na próxima
postagem, partilharei fichas sobre os sentidos de “história contemporânea” e “história
do tempo presente" produzidas a partir da leitura de textos de François Bédarida
[1995], Eric Hobsbawm [1997], Julio Aróstegui [2004] e o seu já clássico La historia vivida: sobre la historia del
presente. Por hora, sugiro reflexão sobre o conceito de aceleração a partir do conjunto das imagens selecionadas pelo vídeo institucional que se segue.
Até já!
Para citar este texto
FREITAS,
Itamar. Visões sobre o contemporâneo e o tempo presente (I). Disponível em:
<http://itamarfo.blogspot.com.br/2012/04/sentidos-de-historia-contemporanea-e.html>.
Fontes das imagens
Reinhart Koselleck. Disponível em: <http://www.fotomarburg.de>. Capturado em: 21 mar. 2012.
Manifestações - Primavera Árabe. Disponível em: <http://navegadormarroquino.blogspot.com>. Capturado em: 14 abr. 2012.
Gérard Noiriel (2010). Disponível em: < http://www.iicparigi.esteri.it>. Capturado em: 21 mar. 2012
Cabeça de Luis XVI. Disponível em: < http://www.portalentretextos.com.br>. Capturado em: 21 mar. 2012
Onze de setembro. Disponível em: < http://www.tlaxcala-int.org>. Capturado em: 16 abr. 2012
Capa do Dicionário de ciências históricas. Itamar Freitas 2012.
Capa de Como se faz a história. Itamar Freitas, 2012.
Manifestações - Primavera Árabe. Disponível em: <http://navegadormarroquino.blogspot.com>. Capturado em: 14 abr. 2012.
Gérard Noiriel (2010). Disponível em: < http://www.iicparigi.esteri.it>. Capturado em: 21 mar. 2012
Cabeça de Luis XVI. Disponível em: < http://www.portalentretextos.com.br>. Capturado em: 21 mar. 2012
Onze de setembro. Disponível em: < http://www.tlaxcala-int.org>. Capturado em: 16 abr. 2012
Capa do Dicionário de ciências históricas. Itamar Freitas 2012.
Capa de Como se faz a história. Itamar Freitas, 2012.
Referências
AZEMA,
J.-P. Tempo presente. In: BURGUIÉRE, André (org.). Dicionário das ciências históricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993. pp.736-740.
CADIOU,
François, COULOMB, Clarisse, LEMONDE, Anne, SANTAMARIA, Yves. Como se faz a história: historiografia,
método e pesquisa. Petrópolis: Vozes, 2007.
DUMOULIN,
O. Contemporânea (História). In: BURGUIÉRE, André (org.). Dicionário das ciências históricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993. pp.
173-175.
KOSELLECK,
Reinhart. Futuro passado: contribuição
à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: PUC-RJ/Contraponto, 2006.
MOTTA,
Márcia Maria Menendes. História, memória e tempo presente. In; CARDOSO, Ciro
Flamarion, VAINFAS, Ronaldo. Novos domínios
da história. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. pp. 21-36.
NOIRIEL,
Gérard. Qu’est-ce que l’histoire contemporaine?
Paris: Hachette, 1998.
PAILLARD,
B. Imediata (História). In: BURGUIÉRE, André (org.). Dicionário das ciências históricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993. pp.
408-411.
[1] As datas entre parênteses
indicam o ano de publicação na língua original.
[2] A expressão história imediata
ganhou relevo após a publicação de mesmo título, empreendida por Jean Lacouture
em 1963. Para B. Paillard [1983], a história imediata invoca “três filiações: o
jornalismo a história e a sociologia”. O autor também define o seu objeto: “É
imediato o que se passa no próprio momento [...] A originalidade da reflexão
sobre o imediato consiste em sistematicamente pegar em flagrante a atualidade,
a novidade, toda a irrupção ou emergência, em resumo, em interessar-se pelos fenômenos
da morfogênese. Ora, toda novaidade é suscetível de requestionar sistemas
explicativos bem estabelecidos”. (Baillard, 1993, p. 408).
Nenhum comentário:
Postar um comentário